A cobertura global de redes 5G já alcança cerca de 55% da população mundial. É o que mostra o relatório “AI Ready”, da União Internacional de Telecomunicações, revelando um avanço notável que, no entanto, esconde uma realidade de profunda desigualdade: enquanto países de alta renda desfrutam de 84% de cobertura, economias de baixa renda mal arranham os 4%.
Essa disparidade não é apenas um número, mas um divisor de águas, delimitando quem terá as ferramentas para capturar o valor dos serviços digitais mais avançados nos próximos anos. Ao mesmo tempo, o setor de telecomunicações se vê apertado pela comoditização dos serviços tradicionais, que reduz as margens de lucro e freia o crescimento.
Para Cesar Gomes, vice-presidente da Cloudera no Brasil, a inteligência artificial não é uma promessa distante, mas uma resposta imediata a essa pressão. Ela ganha terreno nas operadoras como uma ferramenta essencial para a eficiência.
IA em telecom: US$ 27,3 bilhões até 2030, mas o que realmente importa?
Estimativas da Research and Markets apontam que o mercado de IA em telecom pode atingir US$ 27,33 bilhões até 2030. Gomes, no entanto, minimiza a importância do número bruto, focando no movimento por trás dele.
Empresas tentando extrair mais valor de redes já implantadas.
É o que, segundo ele, verdadeiramente impulsiona esse mercado. Um estudo do Boston Consulting Group, “The AI-First Telecommunications Strategy”, corrobora essa visão, sugerindo que a adoção estruturada da IA pode gerar ganhos de produtividade entre 30% e 40% em setores como atendimento ao cliente e operações de rede, além de abrir novas fontes de receita.
No entanto, Gomes adverte que esses resultados não são automáticos. Eles dependem de um fator que raramente figura nos anúncios e comunicados das empresas sobre a adoção de IA. O vice-presidente da Cloudera é taxativo:
O principal limitador da IA nas telecomunicações não está nos algoritmos, mas na forma como os dados são estruturados e utilizados.
Ambientes fragmentados, dados espalhados por inúmeras plataformas e a ausência de uma governança consistente transformam esses ativos em gargalos, impedindo que se convertam em valor de negócio. Por isso, muitas iniciativas de IA acabam restritas a projetos piloto, sem a escala necessária para impactar o setor como um todo.
O índice de Data Readiness da própria Cloudera, desenvolvido em parceria com o Harvard Business Review Analytic Services, revela a dimensão do problema: apenas 7% das empresas declaram que seus dados estão totalmente prontos para serem utilizados em iniciativas de IA.
A governança de dados: o verdadeiro diferencial para a IA prosperar
Para Gomes, o conceito de Data Readiness é crucial para entender o verdadeiro obstáculo que impede as telecomunicações de colher os frutos prometidos pela IA. Ele afirma que:
As instituições brasileiras e globais só conseguirão escalar IA com segurança se tiverem uma base unificada de dados, capaz de eliminar silos e garantir governança.
Trata-se de uma condição fundamental para que a IA transcenda a fase da promessa e se estabeleça como uma vantagem competitiva real. A discussão, ele observa, frequentemente começa pela tecnologia, quando deveria, na verdade, focar na base que a sustenta.
Há, ainda, uma dimensão organizacional que Gomes considera negligenciada. A implementação da IA exige mais do que investimento em plataformas; demanda adaptação de processos, requalificação de funcionários e uma revisão dos modelos de gestão.
Os ganhos com a inteligência artificial, repete Gomes em diversos contextos, não vêm da tecnologia em si, mas da capacidade de integrá-la de forma estratégica ao modelo de negócio. Sem dados bem organizados, sistemas integrados e capacidade de execução, a IA dificilmente ultrapassará a marca de projetos pontuais. Com esses elementos, ela passa a influenciar, de forma concreta, a eficiência operacional e a geração de receita, marcando a transição do setor para uma nova era.