Gráfico que ilustra a concentração dos ataques de ransomware, mostrando que 10 grupos são responsáveis por 71% dos casos globais.

Ransomware: 10 Grupos Concentram 71% dos Ataques, Brasil Sob

Por Miguel Viana • 6 min de leitura

A paisagem do cibercrime está mudando, e não é para melhor. Esqueça a ideia de pequenos grupos espalhando caos de forma isolada. Há uma consolidação maciça em ando, e uma elite de apenas dez gangues de ransomware agora controla uma fatia assustadora: 71% de todos os ataques globais. E para nós, aqui no Brasil, a notícia é ainda mais preocupante: o país já figura entre os mais visados por esses criminosos digitais.

Essa é a radiografia sombria que emerge do mais recente Relatório sobre o Cenário de Ransomware no Primeiro Trimestre de 2026, divulgado pela Check Point Software, por meio de sua divisão de inteligência, a Check Point Research (CPR). O volume de ataques, que já era alto, se mantém lá em cima, mas a surpresa é a organização por trás deles. Os criminosos estão mais estruturados, mais eficientes e, sem dúvida, mais perigosos.

No primeiro trimestre de 2026, impressionantes 2.122 organizações foram expostas, tendo seus dados publicados em sites de vazamento. Esse é o segundo maior número já registrado para um primeiro trimestre. A fragmentação que talvez tenhamos visto em 2025 parece ter ido por água abaixo, dando lugar a uma centralização que favorece os grupos mais robustos e bem-equipados.

O ransomware, nesse novo cenário, não é mais uma ameaça de ondas esporádicas. Pelo contrário, é uma presença constante, um fluxo ininterrupto de pressão sobre empresas e governos. As campanhas agora são previsíveis, repetitivas e alimentadas por acessos previamente comprometidos, quase como se o ataque de fato fosse apenas o estágio final de um processo de infiltração meticuloso.

Um nome se destaca nesse panteão do cibercrime: o grupo Qilin. Ele liderou a atividade global pelo terceiro trimestre consecutivo, com 338 vítimas publicamente reivindicadas. Mas a dinâmica do submundo digital é sempre fluida. Outro grupo, The Gentlemen, por exemplo, demonstrou um crescimento exponencial, saltando de 40 vítimas para 166 no mesmo período. Até o famoso LockBit, que parecia ter perdido fôlego após ações internacionais em 2024, ressurgiu com força, retomando sua capacidade operacional e voltando ao topo da lista de ameaças.

Gráfico de ransomware detalhando a concentração de ataques em poucos grupos cibercriminosos, com destaque para a liderança do Qilin.

Os pesquisadores têm notado uma mudança sutil, mas perigosa, na estratégia desses grupos. O foco não se limita mais apenas a setores tradicionalmente ricos ou críticos. Agora, eles exploram qualquer ambiente que já tenha sido comprometido – seja por acessos fracos, vulnerabilidades de infraestrutura ou credenciais roubadas. Isso expande dramaticamente o leque de alvos, colocando em risco companhias que antes se consideravam fora do radar.

Geograficamente, os Estados Unidos ainda lideram disparado como principal alvo, respondendo por quase metade (49,6%) das vítimas globais. No entanto, a atividade criminosa está se espalhando rapidamente. Países na América Latina e na Ásia-Pacífico sentiram um aumento considerável nos ataques, e é nessa expansão que o Brasil se encaixa, infelizmente, entre os alvos prioritários.

Setores como indústria, manufatura, saúde e serviços empresariais continuam entre os mais atingidos. A razão é simples: eles dependem criticamente da operação ininterrupta. A interrupção, portanto, é a principal alavanca de pressão para os criminosos exigirem o resgate.

“Os ataques de ransomware estão mais concentrados em grupos com elevada capacidade operacional, o que amplia significativamente o impacto financeiro e a interrupção das operações para as empresas afetadas. Ao mesmo tempo, o uso crescente de inteligência artificial acelera etapas como acesso inicial, exploração de vulnerabilidades e movimentação dentro das redes corporativas, reduzindo o tempo de reação das organizações diante dos incidentes”,

afirma Sergey Shykevich, gerente do grupo de inteligência de ameaças da Check Point Software. Essa declaração acende um alerta sobre como a inteligência artificial, que tanto prometemos para o bem, está sendo cooptada por criminosos para refinar suas táticas.

O executivo sublinha que a dependência de respostas reativas é uma estratégia perdedora. As empresas precisam focar em prevenção, fortalecer o controle de acesso, proteger identidades digitais, segmentar redes e limitar qualquer tipo de movimentação lateral dentro de seus ambientes. É um chamado à ação para que as defesas evoluam tão rapidamente quanto as ameaças.

O Brasil no olho do furacão cibernético

A presença do Brasil no top 10 dos países mais impactados por ransomware, concentrando 2% das vítimas no primeiro trimestre de 2026, não é um dado isolado. Reflete uma combinação de fatores: a digitalização acelerada da economia brasileira, que muitas vezes não vem acompanhada de investimentos proporcionais em segurança cibernética, e a percepção de que empresas nacionais podem ser alvos mais fáceis ou, ironicamente, mais propensas a pagar resgates para evitar interrupções de serviço que afetam diretamente o consumidor.

A situação é complexa. A LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), embora seja um importante avanço, pressiona as empresas a protegerem os dados de seus clientes, mas a própria lei também pode ser usada – e tem sido – como uma arma pelos grupos de ransomware. Além de exigir o resgate, eles ameaçam denunciar as vítimas e seus vazamentos à ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados), o que pode resultar em multas pesadas e danos reputacionais irreparáveis. É um dilema terrível para qualquer empresa brasileira pego nessa teia.

Para o setor de tecnologia e Vibe Coding no Brasil, que está em constante crescimento e inovação, essa ameaça é particularmente crítica. Startups, desenvolvedores e empresas de automação lida frequentemente com dados sensíveis e infraestruturas conectadas, tornando-os alvos atrativos. A agilidade que caracteriza muitas dessas empresas precisa ser espelhada na agilidade de suas defesas cibernéticas.

A consolidação vista no relatório da Check Point Research serve como um aviso. Não estamos lidando com hackers amadores, mas com organizações criminosas altamente sofisticadas, que operam como verdadeiros empreendimentos. Elas investem em pesquisa, desenvolvem ferramentas avançadas – inclusive com o auxílio de IA – e têm estratégias claras para maximizar seus lucros.

A questão para as empresas brasileiras, e para as comunidades de programação e tecnologia em geral, não é se serão atacadas, mas quando. A preparação deve incluir não só a fortificação das defesas técnicas, mas também a criação de planos de resposta a incidentes robustos, a conscientização de todos os colaboradores e a constante avaliação de vulnerabilidades. Afinal, em um cenário onde a ameaça é cada vez mais concentrada e profissional, ignorar os riscos pode ser o preço mais alto a ser pago.

Tags: ransomware cibersegurança ataques digitais Brasil Check Point Research

Perguntas Frequentes

Quantos grupos de ransomware são responsáveis pela maioria dos ataques globais?

Dez grupos de ransomware concentram 71% de todos os ataques globais, mostrando uma significativa consolidação no cenário do cibercrime.

Qual grupo de ransomware liderou a atividade no primeiro trimestre de 2026?

O grupo Qilin liderou globalmente, com 338 vítimas publicamente reivindicadas pelo terceiro trimestre consecutivo.

O Brasil está entre os países mais afetados por ransomware?

Sim, o Brasil apareceu entre os dez países mais atingidos por ransomware no primeiro trimestre de 2026, concentrando 2% das vítimas globais.

Como a inteligência artificial está sendo usada pelos grupos de ransomware?

A IA acelera etapas críticas do ataque, como acesso inicial, exploração de vulnerabilidades e movimentação interna nas redes corporativas, reduzindo o tempo de reação das vítimas.

Quais setores são mais visados pelos ataques de ransomware?

Indústria, manufatura, saúde e serviços empresariais continuam entre os mais impactados devido à alta dependência operacional e ao potencial de interrupção de suas atividades.