A corrida por poder computacional na era da inteligência artificial acaba de ganhar um novo capítulo, e ele envolve cifras bilionárias e chips de silício. A Microsoft, gigante do software e da nuvem, está em negociações avançadas para fornecer seus cobiçados chips personalizados de IA à Anthropic, uma das startups mais quentes do setor. A confirmação veio nesta quinta-feira (21) pela CNBC, jogando luz sobre um movimento que pode redefinir o tabuleiro da disputa por infraestrutura de IA.
Para a Microsoft, um acordo como esse não seria apenas mais um contrato. Representaria uma vitória estratégica e um passo adiante na briga com rivais de peso como a Amazon e o Google. Ambas já estão mais à frente no fornecimento de chips especializados para inteligência artificial, uma área onde cada microsegundo e cada watt de energia fazem a diferença. A gigante de Redmond apresentou, em janeiro, a segunda geração de seu chip de IA, o Maia 200, mas ainda precisa levá-lo à sua plataforma de nuvem Azure em larga escala. A promessa é grande: o Maia 200 seria o motor por trás do modelo GPT-5.2 da OpenAI.
Entretanto, o caminho não está totalmente pavimentado. Uma fonte anônima, familiarizada com os bastidores das negociações, ressaltou que a Anthropic ainda não selou o acordo com a Microsoft para usar os chips Maia. O portal The Information já havia antecipado essas conversas, indicando que a movimentação é monitorada de perto por todo o setor. Curiosamente, a bolsa de valores não reagiu com grande entusiasmo; as ações da Microsoft registraram pouca alteração após a notícia.
A sede da Anthropic por superpoderes de IA
A necessidade de capacidade computacional da Anthropic é um tema recorrente. Em novembro, a situação se tornou mais clara quando a Microsoft anunciou um investimento de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 25,1 bilhões) na startup. Em troca, a Anthropic se comprometeu a gastar robustos US$ 30 bilhões (aproximadamente R$ 150,3 bilhões) na plataforma Azure. Mas essa não é a única frente de batalha tecnológica da startup, que também já utiliza os serviços de nuvem da Amazon e do Google.
Não é para menos. O cofundador e CEO da empresa, Dario Amodei, foi franco em um evento recente ao admitir que a Anthropic tem enfrentado “dificuldades com capacidade computacional”. A ascensão meteórica de seu assistente Claude e, mais especificamente, da ferramenta Claude Code – voltada para a programação assistida por IA – impulsionou uma demanda implacável por poder de processamento. A programação, que antes dependia apenas do raciocínio humano, agora ganha um co-piloto inteligente, e isso exige servidores sedentos por dados e energia em tempo real.
A dimensão dessa sede computacional ficou ainda mais evidente com a revelação da SpaceX, na quarta-feira anterior à notícia. A Anthropic, segundo a empresa de Elon Musk, pagará a quantia impressionante de US$ 1,25 bilhão por mês (cerca de R$ 6,3 bilhões) pela capacidade de processamento dos supercomputadores da SpaceX até maio de 2029. Isso demonstra o nível de investimento e a urgência para garantir que seus modelos de IA continuem inovando e escalando.
A intensa disputa por infraestrutura e o papel da Nvidia
Historicamente, a Anthropic dependeu fortemente das unidades de processamento gráfico (GPUs) da Nvidia, que são a espinha dorsal para treinar e operar modelos generativos de IA. A Nvidia, para se ter uma ideia, transformou-se em uma das empresas mais valiosas do mundo à medida que a demanda por seus chips disparou. Mas a Anthropic não coloca todos os seus ovos na mesma cesta.
Em abril, a empresa anunciou sua intenção de usar os chips personalizados Trainium da Amazon Web Services em um acordo que alguns analistas estimam em mais de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 501 bilhões) ao longo de dez anos. Não parou por aí: em outubro, a startup divulgou planos para incorporar os chips de unidade de processamento tensorial (TPUs) do Google em sua arquitetura. Essa diversificação mostra a busca incessante por otimização, custo-benefício e, acima de tudo, resiliência na infraestrutura que suporta modelos de IA cada vez mais complexos.
Nenhuma das três partes – Anthropic, Microsoft ou Nvidia – comentaram imediatamente os detalhes dessas negociações recentes. Mas Satya Nadella, CEO da Microsoft, já havia dado um indício da capacidade de seu novo chip Maia 200 em abril, durante a teleconferência de resultados da companhia. Segundo ele, o chip “oferece mais de 30% de melhoria em tokens por dólar, comparado ao silício mais recente da nossa frota”. Nadella acrescentou que os chips da Microsoft já estão ativos em centros de dados no Arizona e em Iowa, nos Estados Unidos, sinalizando que a empresa está pronta para uma expansão significativa nesse campo.
Fica a pergunta: conseguirão as empresas de software e nuvem internalizar a produção de chips de IA a ponto de reduzir a dependência da Nvidia, ou continuaremos a ver uma complexa teia de parcerias e infraestruturas híbridas ditando o ritmo da inovação? A batalha pelo silício da inteligência artificial está só começando, e cada nova união pode mudar o jogo.