A cena era, em 2015, de pura sintonia. Elon Musk e Sam Altman posavam juntos para a Vanity Fair em São Francisco, anunciando ao mundo uma parceria que prometia mudar os rumos da inteligência artificial. Eles cofundavam a OpenAI, uma iniciativa sem fins lucrativos, nascida do temor de que o Google, àquela altura, monopolizasse o poder da IA. Musk já era o bilionário por trás da Tesla, e Altman, o mentor da renomada Y Combinator.
Mal sabiam que, menos de uma década depois, aquele pacto de cooperação se desintegraria em uma batalha judicial feroz. Virou uma saga digna de roteiro de Hollywood, mas com consequências muito reais para o futuro da tecnologia. A amizade desfeita e a troca de acusações entre os dois figurões da tecnologia culminaram em um julgamento polêmico em Oakland, Califórnia, que agitou o setor nas últimas semanas.
Musk, em 2024, decidiu processar Altman e a própria OpenAI, alegando que a empresa teria violado seu compromisso original de permanecer como uma entidade sem fins lucrativos. A ironia é gritante: a OpenAI, que nasceu para ser um contraponto aos gigantes corporativos, hoje é avaliada em mais de US$ 850 bilhões, enquanto a xAI, sua concorrente direta de Musk, se fundiu à SpaceX e vale US$ 1,25 trilhão. Ambas correm para o mercado de capitais.
No centro da trama, a questão de quem controla e quem lucra com a inteligência artificial mais avançada do planeta. E a história não é apenas sobre dinheiro. É sobre poder, ideais e o futuro da IA.
“Você não pode querer tudo ao mesmo tempo”, afirmou Musk, categórico, em 29 de abril, durante seu depoimento aos advogados da OpenAI. Ele acusou Altman e Greg Brockman, presidente e cofundador da OpenAI, de se enriquecerem às custas de uma organização que deveria ser beneficente, ao mesmo tempo em que ostentavam a imagem de líderes de uma ONG.
A retórica de Musk, embora forte, não é nova. Ele tem repetido em sua rede social X – hoje controlada pela SpaceX – que a OpenAI simplesmente não existiria sem ele.
“Eu tive a ideia, criei o nome, recrutei as pessoas-chave, ensinei tudo o que sei, forneci todo o financiamento inicial”, disse Musk, reafirmando sua visão de fundador.
Por outro lado, Altman, em seu depoimento na semana passada, rechaçou as acusações, alegando que ele e os demais cofundadores nunca assumiram compromissos com Musk sobre a estrutura societária da empresa. Para Altman, um dos grandes atritos desde o princípio era a obsessão de Musk por controle total sobre a OpenAI, desconfiando das decisões de outros.
“Eu me sentia extremamente desconfortável com isso”, revelou Altman no tribunal, referindo-se à busca incessante de poder por parte de Musk.
A batalha se desenrolou por três semanas, com advogados de ambos os lados apresentando seus argumentos finais. O júri deve agora decidir se as acusações de Musk são válidas e se a OpenAI, Altman e Brockman devem ser responsabilizados por violação de dever fiduciário de entidade beneficente e enriquecimento sem causa. Não é pouca coisa.
O resultado terá implicações profundas, não só para os envolvidos, mas para todo o ecossistema de inteligência artificial. A tese de Musk — que investiu pesadamente na OpenAI e, em determinado momento, chegou a ser o maior doador individual — é que a empresa foi desviada de seu propósito altruísta. A intenção original, segundo ele, era desenvolver IA para o bem da humanidade, de forma aberta e sem viés comercial predominante, não gerar lucros astronômicos para poucos. De fato, a transição para um modelo híbrido, com uma divisão com fins lucrativos (OpenAI LP), gerou questionamentos.
Para o Brasil, o desfecho desse embate pode ecoar de diversas formas. Nosso país, embora não seja um polo de desenvolvimento de IA de ponta como os EUA, é um grande consumidor e aplicador dessa tecnologia. Empresas brasileiras, startups e o próprio governo utilizam cada vez mais ferramentas baseadas em modelos como o GPT-4 da OpenAI. Se a governança de grandes modelos de IA for redefinida, seja por imposição legal ou por novas diretrizes éticas, isso pode afetar a disponibilidade, o custo e até a forma como essas inteligências são desenvolvidas e acessadas por aqui.
Por exemplo, uma eventual vitória de Musk, que defende uma abordagem mais aberta e menos comercial, poderia indiretamente fomentar iniciativas de IA de código aberto ou com licenças mais flexíveis, o que beneficiaria o acesso e a pesquisa local. Por outro lado, um cenário onde a OpenAI é legitimada a operar como uma empresa com fins lucrativos sem grandes restrições pode acelerar a corrida por capital e a patente de inovações, dificultando a replicação e o desenvolvimento independente em mercados emergentes.
Como a semente da discórdia foi plantada
A parceria que azedou começou há mais de uma década, precisamente em maio de 2015. Altman enviou um e-mail a Musk com uma pergunta intrigante: ele achava uma boa ideia se a Y Combinator lançasse um "Projeto Manhattan para a IA"? A resposta de Musk foi um breve, porém fatídico, “provavelmente merecia uma conversa”. E a conversa aconteceu. A OpenAI foi lançada em dezembro de 2015, com Musk prometendo financiar a empreitada com até US$ 1 bilhão.
“Estou extremamente impressionado com todos até agora”, escreveu Musk a Altman em novembro de 2015, em e-mails que vieram à tona durante o processo. “Este é um grande time...”
O encanto, no entanto, não durou. As visões de Musk e Altman sobre o futuro da IA, a ética envolvida e, principalmente, o modelo de negócios da OpenAI, divergiram drasticamente. Em 2018, Musk deixou o conselho da OpenAI, citando conflitos de interesse com a Tesla, que também buscava avançar em IA para seus carros autônomos. Ele, naquele momento, se dizia preocupado com a "segurança da IA" e a necessidade de uma abordagem mais cautelosa. Os documentos do processo, porém, parecem pintar um quadro mais complexo, com a disputa por controle sendo um fator principal.
Independentemente do veredito final desse julgamento épico, uma coisa é certa, como bem pontuou Stavros Gadinis, professor da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Berkeley: a imagem de ambos os magnatas da tecnologia sairá arranhada na opinião pública.
“Depois de semanas de depoimentos prejudiciais, o público fica diante da escolha entre dois bilionários em confronto, cada um convencido de que é o guardião legítimo de uma tecnologia transformadora”, avaliou Gadinis por e-mail. “A resposta a que a maioria das pessoas chegará é: nenhum dos dois.”
A verdade é que esse processo não é apenas uma briga de bilionários. É uma espécie de termômetro das tensões que permeiam o desenvolvimento da inteligência artificial. Entre o idealismo de uma IA para o bem comum e a realidade do bilho de capital que ela pode gerar, a busca por um equilíbrio é mais urgente do que nunca. A pergunta que fica é: quem será o verdadeiro vencedor quando a poeira baixar, e qual será o custo para a inovação e a coletividade?