Demissão em massa na Fundação Nacional de Ciência dos EUA: o que está acontecendo?
A ciência nos Estados Unidos foi pega de surpresa com a demissão de toda a diretoria da Fundação Nacional de Ciência (NSF). Vinte e dois cientistas de destaque, responsáveis por supervisionar projetos de pesquisa que somam cerca de 9 bilhões de dólares, foram dispensados de uma só vez. A notícia chegou de forma abrupta, por e-mail, gerando incertezas sobre o futuro da pesquisa no país.
A NSF tem enfrentado turbulências. Desde abril de 2025, a fundação está sem um diretor fixo, quando Sethuraman Panchanathan deixou o cargo. Sua saída ocorreu após uma série de cortes de financiamento e demissões em massa sob a administração de Donald Trump, que já demonstrava interesse em agências federais de ciência. A indicação de Jim O'Neill, um investidor conhecido por sua paixão por 'longevidade' e sem formação científica formal, para a diretoria, já gerava questionamentos na comunidade.
As implicações exatas para a ciência norte-americana ainda são incertas, mas o cenário não é dos mais animadores. A NSF, criada em 1950 para "promover o progresso da ciência", tem sido um pilar fundamental para o apoio à pesquisa e educação. Em 2024, a agência destinou cerca de US$ 9,39 bilhões em seu orçamento – um valor substancial, mesmo que represente apenas 0,1% de todos os gastos federais.
O papel da diretoria e a comunicação abrupta
As decisões cruciais sobre como esses fundos são alocados sempre couberam à diretoria da Fundação Nacional de Ciência. Cada cientista que integrava o conselho, até a semana passada, era indicado pelo presidente dos EUA para um mandato inicial de seis anos. Esses membros tinham a responsabilidade de definir políticas para a NSF, autorizar grandes despesas e garantir a fiscalização dos projetos, conforme explica Keivan Stassun, físico e astrônomo da Universidade Vanderbilt, nomeado para o conselho no final de 2022. Stassun menciona exemplos recentes do impacto do conselho:
"Há alguns anos, o conselho foi responsável por estabelecer uma nova 'diretoria' dentro da agência para direcionar financiamento para 'tecnologia, inovações e parcerias', por exemplo. O conselho também autorizou o financiamento para o Programa de Telescópios Extremamente Grandes dos EUA."
Para Stassun, era um "tremendo orgulho" fazer parte de um grupo relativamente pequeno com "tremenda responsabilidade e autoridade". Na última sexta-feira, porém, essa realidade mudou drasticamente.
O e-mail que selou o destino dos cientistas era curto e direto:
"Em nome do Presidente Trump, esta carta é para notificá-lo de que sua posição como membro do National Science Board é encerrada com efeito imediato. Obrigado pelo seu serviço."
Stassun se disse "profundamente desapontado". Contudo, a demissão não foi uma surpresa completa para ele, dada a série de ações da administração Trump contra agências federais de ciência ao longo do último ano.
Cortes e congelamentos: um panorama preocupante
Desde o início de 2025, a NSF, junto com diversas outras agências federais, tem lidado com o congelamento, descongelamento e, por vezes, encerramento de bolsas e projetos. Stassun é categórico ao afirmar que o conselho não esteve envolvido em nenhuma dessas decisões de corte ou na demissão de funcionários. Atualmente, o número de colaboradores da agência diminuiu em 40%, aponta ele.
Em 2026, a administração Trump já havia solicitado um corte de cerca de 57% no orçamento da NSF. No ano passado, funcionários da agência chegaram a redigir uma carta de repúdio, argumentando que cortes tão significativos poderiam "paralisar a ciência americana". Se implementados, esses cortes teriam afetado severamente áreas como as ciências biológicas, engenharia e a educação em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Apesar de o Congresso ter rejeitado esses cortes no início deste ano, o encerramento de bolsas e as demissões estão, na prática, permitindo que as reduções orçamentárias se concretizem, segundo Stassun. "Os fundos que a Casa Branca tem dispersado para a agência... têm sido muito menores do que o Congresso pretendia", lamenta o cientista. Muitos projetos de pesquisa ambiciosos estão agora paralisados ou em risco de não avançar. O Programa de Telescópios Extremamente Grandes, por exemplo, parece estar inviabilizado por enquanto, e a área da NSF dedicada à educação científica foi desativada.
Impactos na inovação e na IA global
Essa desestabilização da agência pode ter reflexos indiretos significativos para a inovação global, e o Brasil não está imune. Embora a conexão não seja direta, a NSF é uma das grandes catalisadoras de pesquisas de ponta, incluindo as de inteligência artificial. Com menos investimento e instabilidade, o ritmo de descobertas pode ser impactado, retardando avanços que eventualmente beneficiariam todos os países. A pesquisa em IA, um dos pilares do futuro digital, depende fortemente de grandes volumes de investimento e de um ambiente de estabilidade e colaboração científica.
Se a principal agência financiadora da ciência nos EUA está fragilizada, a competitividade do país em áreas críticas como IA pode ser comprometida a longo prazo. Isso poderia, inclusive, abrir espaço para outras nações avançarem mais rapidamente. Para o Brasil, que busca um lugar de destaque no cenário de IA, qualquer retrocesso em outros polos de pesquisa representa uma oportunidade de reavaliação de suas próprias estratégias de investimento e fomento à ciência. O que está acontecendo nos EUA é um lembrete vívido da importância da autonomia e do apoio contínuo à pesquisa científica para o desenvolvimento de qualquer nação.