Um gráfico mostrando cortes orçamentários drasticos da Fundação Nacional de Ciências dos EUA, com o dedo de uma pessoa apontando para baixo.

O que acontece quando a Casa Branca demite 22 cientistas de

Por Anselmo Bispo • 5 min de leitura

A terra tremeu para a ciência nos Estados Unidos: o que era para ser uma semana normal acabou se tornando um palco para um golpe sem precedentes, com a demissão de toda a diretoria da Fundação Nacional de Ciência (NSF). Vinte e dois cientistas proeminentes, responsáveis por supervisionar projetos de pesquisa que somam cerca de 9 bilhões de dólares, foram dispensados de uma só vez. A notícia chegou de forma abrupta, por e-mail, e joga uma sombra pesada sobre o futuro da pesquisa no país.

Essa não é a primeira vez que a NSF enfrenta turbulências recentes. Desde abril de 2025, a fundação está sem um diretor fixo, quando Sethuraman Panchanathan, o então comandante, deixou o cargo. Sua saída veio após uma série de cortes de financiamento e demissões em massa realizadas sob a administração de Donald Trump, que já mirava agências federais de ciência. O nome indicado para o novo diretor, Jim O'Neill, é um investidor conhecido por sua paixão por 'longevidade', mas que, ironicamente, não possui formação científica formal. Essa escolha, por si só, já levantava questionamentos na comunidade.

As implicações exatas para a ciência norte-americana ainda são incertas, mas o cenário não é dos mais otimistas. A NSF, estabelecida em 1950 com o objetivo de "promover o progresso da ciência", tem sido, desde então, um esteio fundamental para o apoio à pesquisa e educação. Em 2024, a agência dedicou cerca de US$ 9,39 bilhões em seu orçamento – um valor substancial, ainda que represente apenas 0,1% de todos os gastos federais.

O papel da diretoria e a mensagem abrupta

As decisões cruciais sobre como esses fundos são alocados sempre couberam à diretoria da Fundação Nacional de Ciência. Cada um dos cientistas que integrava o conselho, até a última semana, era indicado pelo presidente dos EUA para um mandato inicial de seis anos. Esses membros tinham a responsabilidade de definir políticas para a NSF, autorizar grandes despesas e garantir a fiscalização dos projetos, conforme explica Keivan Stassun, físico e astrônomo da Universidade Vanderbilt, que havia sido nomeado para o conselho no final de 2022. Stassun menciona exemplos recentes do impacto do conselho:

"Há alguns anos, o conselho foi responsável por estabelecer uma nova 'diretoria' dentro da agência para direcionar financiamento para 'tecnologia, inovações e parcerias', por exemplo. O conselho também autorizou o financiamento para o Programa de Telescópios Extremamente Grandes dos EUA."

Para Stassun, era um "tremendo orgulho" fazer parte de um grupo relativamente pequeno com "tremenda responsabilidade e autoridade". Na última sexta-feira, porém, essa realidade mudou drasticamente.

O e-mail fatídico que selou o destino dos cientistas era curto e direto:

"Em nome do Presidente Trump, esta carta é para notificá-lo de que sua posição como membro do National Science Board é encerrada com efeito imediato. Obrigado pelo seu serviço."

Stassun se disse "profundamente desapontado". Contudo, a demissão não foi uma surpresa completa para ele, dada a série de ações da administração Trump contra agências federais de ciência ao longo do último ano.

Cortes e congelamentos: um panorama sombrio

Desde o início de 2025, a NSF, junto com diversas outras agências federais, tem lidado com o congelamento, descongelamento e, por vezes, encerramento de bolsas e projetos. Stassun é categórico ao afirmar que o conselho não esteve envolvido em nenhuma dessas decisões de corte ou na demissão de funcionários. Atualmente, o número de colaboradores da agência diminuiu em 40%, aponta ele.

Em 2026, a administração Trump já havia solicitado um corte de cerca de 57% no orçamento da NSF. No ano passado, funcionários da agência chegaram a redigir uma carta de repúdio, argumentando que cortes tão significativos poderiam "paralisar a ciência americana". Se implementados, esses cortes teriam afetado severamente áreas como as ciências biológicas, engenharia e a educação em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Apesar de o Congresso ter rejeitado esses cortes no início deste ano, o encerramento de bolsas e as demissões estão, na prática, permitindo que as reduções orçamentárias se concretizem, segundo Stassun. "Os fundos que a Casa Branca tem dispersado para a agência... têm sido muito menores do que o Congresso pretendia", lamenta o cientista. Muitos projetos de pesquisa ambiciosos estão agora paralisados ou em risco de não avançar. O Programa de Telescópios Extremamente Grandes, por exemplo, parece estar "morto na água por enquanto", e o braço da NSF dedicado à educação científica foi "efetivamente zerado".

Impactos na inovação e na IA brasileira

Essa desestabilização da agência pode ter reflexos indiretos significativos para a inovação global, e o Brasil não está imune. Embora a conexão não seja direta, a NSF é uma das grandes catalisadoras de pesquisas de ponta, incluindo as de inteligência artificial. Com menos investimento e instabilidade, o ritmo de descobertas pode ser impactado, retardando avanços que eventualmente beneficiariam todos os países. A pesquisa em IA, um dos pilares do futuro digital, depende fortemente de grandes volumes de investimento e de um ambiente de estabilidade e colaboração científica.

Se a principal agência financiadora da ciência nos EUA está fragilizada, a competitividade do país em áreas críticas como IA pode ser comprometida a longo prazo. Isso poderia, inclusive, abrir espaço para outras nações avançarem mais rapidamente. Para o Brasil, que corre atrás de um lugar de destaque no cenário de IA, qualquer retrocesso em outros polos de pesquisa representa uma oportunidade de reavaliação de suas próprias estratégias de investimento e fomento à ciência. O que está acontecendo nos EUA é um lembrete vívido da importância da autonomia e do apoio contínuo à pesquisa científica para o desenvolvimento de qualquer nação.

Tags: ciência EUA política científica NSF inteligência artificial

Perguntas Frequentes

O que é a Fundação Nacional de Ciência (NSF)?

A NSF é uma agência federal dos Estados Unidos, criada em 1950, que tem como objetivo promover o progresso da ciência e apoiar a pesquisa e a educação em diversas áreas.

Quem foi demitido da NSF e por quê?

Os 22 cientistas que compunham a diretoria da NSF foram demitidos por e-mail pela administração Trump. Essa ação faz parte de uma série de movimentos que visam reduzir o financiamento e o escopo das agências federais de ciência.

Qual o perfil do novo indicado para diretor da NSF?

O indicado para o cargo de diretor é Jim O'Neill, um investidor com foco em longevidade, mas que não possui formação científica formal, o que gerou preocupação na comunidade acadêmica.

Os cortes no orçamento da NSF foram aprovados?

Os cortes de 57% no orçamento da NSF, propostos pela administração Trump, foram rejeitados pelo Congresso. No entanto, o encerramento de bolsas e as demissões estão, na prática, diminuindo os fundos disponíveis para a pesquisa.

Como essa situação pode afetar a pesquisa em Inteligência Artificial no Brasil?

Embora indiretamente, a desestabilização de uma grande agência financiadora de ciência nos EUA pode desacelerar o ritmo de descobertas em IA globalmente. Isso pode criar tanto um desafio quanto uma oportunidade para o Brasil reavaliar e fortalecer suas próprias estratégias de investimento e fomento à pesquisa em IA.