A terra onde Michael Deppert cultiva abóboras, milho e soja no Condado de Tazewell, Illinois, depende de uma verdadeira piscina natural de água, escondida sob o solo arenoso. É essa reserva que irriga suas plantações, a base de seu sustento.
Quando surgiu a proposta de um novo data center a meros treze quilômetros de sua fazenda, a preocupação foi imediata. Deppert temia que a nova estrutura pudesse sugar o mesmo aquífero, prejudicando os rendimentos das culturas e, claro, o lucro arduamente conquistado.
“Nós estávamos nervosos sobre como um data center afetaria a 'água potável boa e limpa'.”
A declaração de Deppert, que também preside o grupo de lobby da associação local de agricultores, resume o sentimento geral. Os moradores não demoraram a organizar uma campanha de oposição vigorosa, lotando as reuniões da câmara municipal e coletando petições. A controvérsia durou vários meses, mas a comunidade venceu: o projeto, que seria desenvolvido pela Western Hospitality Partners, foi finalmente arquivado.
A crescente demanda por recursos
O episódio de Tazewell, Illinois, não é um caso isolado. Por todos os Estados Unidos, cidades e condados rurais estão virando campo de batalha na medida em que a expansão dos data centers avança. Alimentados por investimentos bilionários em empresas como Microsoft, Amazon e Google, e impulsionados pela corrida do ouro da inteligência artificial, esses gigantes da computação exigem quantidades monumentais de eletricidade e, de forma ainda mais crítica, água.
A consultoria S&P Global Market Intelligence projeta que a demanda global por energia dos data centers mais do que dobrará até 2030, saltando de 80-90 terawatts-hora (TWh) em 2022 para 250-300 TWh. Uma parcela significativa desse aumento vem da IA, que consome entre duas e nove vezes mais energia do que a computação tradicional para treinar modelos de linguagem grandes como o ChatGPT.
A sede insaciável da IA
O consumo de água é igualmente surpreendente. Um único data center de grande porte pode usar o equivalente à demanda diária de dezenas de milhares de lares. Para resfriar centenas de milhares de servidores rodando 24 horas por dia, 7 dias por semana, é preciso muita água – uma torre de resfriamento pode evaporar milhões de litros por dia.
A Environmental Protection Agency (EPA) dos EUA estima que os data centers, até 2027, serão responsáveis por 30% da demanda total de eletricidade do país e 17% do consumo de água para todos fins. Esses números assustam as comunidades, especialmente em regiões já afetadas pela escassez hídrica.
O embate entre progresso e subsistência
A tensão é palpable. Por um lado, as empresas de tecnologia prometem empregos e investimentos. Por outro, os moradores locais veem seus recursos naturais e seu modo de vida ameaçados. Em locais como o Condado de Loudoun, Virgínia, conhecido como “Data Center Alley”, a proliferação já transformou a paisagem. Lá, 70% do tráfego mundial da internet passa por uma região que antes era essencialmente rural.
A Loudoun County EDA (Agência de Desenvolvimento Econômico) relata que os data centers contribuíram com 15,3% da receita fiscal anual do condado em 2023, totalizando cerca de 500 milhões de dólares. Contudo, essa riqueza tem custo: engarrafamentos, valorização imobiliária que afasta moradores de longa data e uma pressão sobre a infraestrutura que os serviços públicos lutam para acompanhar.
O desafio de equilibrar desenvolvimento e sustentabilidade
A escolha de áreas rurais para data centers não é aleatória. A terra é mais barata, há mais espaço e, muitas vezes, menor resistência inicial. Além disso, a proximidade de fontes de energia e as redes de transmissão existentes são fatores cruciais. A gigante Google, por exemplo, emitiu um comunicado destacando seu compromisso com a sustentabilidade, investindo em energias renováveis e promovendo a reutilização de água.
“Nós nos esforçamos para ser líderes em sustentabilidade e estamos trabalhando para zerar nossas emissões de carbono até 2030. Nossos esforços incluem investimentos massivos em energias renováveis e na otimização do uso da água.”
Mesmo assim, a escala da demanda levanta dúvidas. Para muitos fazendeiros como Deppert, a água é um recurso finito e indispensável, e sua prioridade é garantir que as gerações futuras também possam ter acesso a ela.
O futuro dos data centers no Brasil
No Brasil, a discussão ainda é incipiente, mas o cenário tende a se repetir. Com o avanço da computação em nuvem e, claro, da inteligência artificial, a demanda por data centers só cresce. Nosso país tem vastas áreas rurais e uma matriz energética que, embora dependente de hidrelétricas, ainda gera preocupações quanto à sustentabilidade em um contexto de secas cada vez mais severas.
É fundamental que as empresas e os governos considerem de perto as lições aprendidas nos EUA. A sustentabilidade não pode ser apenas um discurso; ela precisa ser uma prática integrada ao planejamento, com diálogo transparente e respeito às comunidades locais. Caso contrário, a 'corrida da IA' pode gerar mais conflitos do que progresso, deixando um rastro de escassez e descontentamento. Será que estamos preparados para esses embates hídricos e energéticos no nosso próprio quintal?