A DeepMind, o lendário laboratório de inteligência artificial do Google, parece ter um novo título não oficial: 'fábrica de fundadores'. Uma enxurrada de ex-funcionários tem lançado dezenas de startups na Europa e em outras partes do mundo nos últimos 18 meses, com um foco pesado em IA. O mais célebre deles é David Silver, cujo novo laboratório britânico, Ineffable Intelligence, conseguiu levantar uma impressionante rodada de financiamento semente de US$ 1,1 bilhão.
Mas Silver é apenas a ponta do iceberg. Dados recentes mostram que ele é um dos 112 ex-alunos da DeepMind que, no último ano e meio, fundaram ou estão em vias de fundar uma nova empresa. O impacto é tão grande que alguns comparam o fenômeno DeepMind ao que Klarna e Spotify fizeram pela cena tecnológica europeia em suas respectivas épocas. É uma proliferação de talentos que está redefinindo o ecossistema de startups.
“Estamos vendo a DeepMind fazer pela IA o que Klarna e Spotify fizeram pela tecnologia europeia. Está se transformando em uma fábrica de fundadores. David Silver é a manchete, mas o pipeline por trás dele é a verdadeira história.”
A afirmação é de Jacob Houlberg, cofundador da Evertrace, uma empresa de dados que assessora VCs e investidores, e que coletou essas informações. Eles se basearam em uma variedade de fontes públicas, incluindo registros de empresas, patentes e bolsas de pesquisa, para mapear a jornada desses empreendedores.
A proliferação de talentos globais da DeepMind
Das 112 novas empresas identificadas, um grupo significativo de 70 está nos Estados Unidos, mas a Europa também abriga um grande número. O Reino Unido, berço da DeepMind, registra 28 dessas startups. Há também representantes na Espanha (3), Suíça (2), Alemanha (2), Canadá (2), e um em cada país como Áustria, Polônia, Hong Kong, Índia e Coreia do Sul.
É interessante notar a divisão: 38 fundaram uma empresa abertamente, enquanto 74 assumiram um papel de 'stealth'. Tradicionalmente, esse termo significa que o indivíduo está lançando uma nova startup, mas opera em sigilo. Todas as empresas identificadas possuem página no LinkedIn e um site ativo, o que garante a autenticidade dos projetos.
Entre os nomes de peso que migraram da DeepMind, encontramos Saining Xie, ex-cientista da DeepMind e professor de ciência da computação na NYU. Ele foi o cérebro por trás da pesquisa que deu origem ao inovador “diffusion transformer” em 2022. Agora, Xie atua como Diretor Científico e cofundador da Advanced Machine Intelligence, uma startup de modelos de mundo em IA de alto perfil, co-fundada pelo ex-cientista chefe da Meta, Yann LeCun.
Outro talento é Noah Goodman, ex-cientista da DeepMind e professor de psicologia e ciência da computação em Stanford. Ele é cofundador da startup americana de IA Humans&, que propõe uma abordagem de empoderamento humano pela IA, e levantou 480 milhões de dólares em financiamento semente ainda este ano. A visão da Humans& é clara: usar a inteligência artificial para aumentar as capacidades das pessoas, e não as substituir.
Startups no berço da IA britânica
O Reino Unido, em particular, está fervilhando com o legado da DeepMind. Um exemplo notório é Olivier Henaff, ex-cientista da DeepMind, que agora é cofundador da Cursive, uma startup de modelos de fundação de IA. A Cursive recebeu apoio do fundo de VC patrocinado pelo governo, Sovereign AI, o que sublinha a importância estratégica que o país dá a essas iniciativas.
Até mesmo um trio de ex-estagiários da DeepMind está deixando sua marca: Guanming Wang criou a General Instinct, focada em IA para modelos de linguagem e visão; Arhaan Shaikh cofundou a Wizzaid, uma startup de infraestrutura de dados de saúde; e Abdul Raheem Nazir é cofundador da Experiqlabs, uma startup de pesquisa tecnológica. O fato de que até mesmo estagiários estão se tornando fundadores ressalta a cultura de inovação e o acúmulo de conhecimento que a DeepMind proporciona.
Expansão para toda a Europa
A influência se espalha para além das fronteiras britânicas. Na Suíça, por exemplo, Alexander Taboriskiy, que anteriormente liderou a engenharia de software do projeto Gemini na DeepMind, é agora CEO e cofundador da Mentiora, sediada em Zurique. A Mentiora está construindo o que eles chamam de uma plataforma de IA de “próxima geração”.
Em Paris, Angelos Chionis, ex-consultor da DeepMind, fundou a FormalistAI, uma empresa de IA jurídica. Já em Munique, Ann-Kristin Balve, que foi bolsista da DeepMind, cofundou a startup de tecnologia de defesa Omnisent. Vemos, portanto, que a diversidade de setores que esses ex-alunos da DeepMind estão abordando é vasta, indo da saúde ao direito e à defesa.
Este fenômeno da DeepMind reflete uma tendência maior no ecossistema de tecnologia global: empresas de ponta, ao cultivarem e concentrarem mentes brilhantes, acabam se tornando incubadoras informais de talentos empreendedores. O 'DeepMind mafia', como alguns poderiam chamar, está apenas começando a moldar o futuro da inteligência artificial.
A experiência em pesquisa de ponta e o acesso a recursos que a DeepMind oferece, sob a égide do Google, equipam esses profissionais para voos solo. Eles saem com um conhecimento profundo, uma rede de contatos poderosa e, crucialmente, a confiança para inovar. Isso levanta uma questão fascinante: será que o Brasil conseguirá replicar um ecossistema assim, com a criação de grandes “fábricas de talentos” em IA, ou continuaremos a ver nossos próprios talentos migrando para centros mais consolidados de inovação?