A promessa da inteligência artificial sempre foi nos tornar mais eficientes, mas e se ela estivesse, na verdade, nos deixando menos inteligentes? É uma pergunta que paira no ar e que Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e pesquisador do Núcleo de Pesquisa em CyberPsicologia da USP, tem explorado. Ele alerta que sistemas como o ChatGPT, apesar de suas utilidades, podem trazer um lado não tão brilhante para a cognição humana.
A discussão não é de hoje. Já na década de 1970, o filósofo Nicholas Carr questionava como a internet estava modificando nossos cérebros. Agora, com a IA generativa, essa questão ganha uma nova camada de complexidade. Cortiz, que também é apresentador do podcast Deu Tilt, aponta que o grande problema reside na dependência que podemos desenvolver dessas ferramentas.
O perigo da dependência e a perda de habilidades
Cortiz explica que o uso excessivo de ferramentas de IA pode levar a uma diminuição de nossas funções cognitivas. Ele compara a situação ao uso constante de uma calculadora, que pode nos fazer perder a capacidade de realizar cálculos mentais simples. Com a IA, o escopo é muito maior, afetando desde a escrita até a tomada de decisões complexas.
A gente se acostuma com as facilidades que a tecnologia nos traz e acaba perdendo habilidades. Pode acontecer, por exemplo, de perdermos a capacidade de fazer um texto, de sintetizar um texto, de fazer um cálculo, porque a gente sempre usa o ChatGPT, sempre usa a calculadora.
Isso não significa que a IA seja intrinsecamente maligna. O problema, segundo o pesquisador, está no modo como nos relacionamos com ela. Ele sugere que, para manter nossas habilidades afiadas, precisamos usar a IA de forma consciente e com propósito, não como uma substituta para o pensamento crítico ou a criatividade.
Cortiz cita um exemplo prático: estudantes que usam o ChatGPT para escrever redações, mas perdem a capacidade de articular pensamentos e construir argumentos próprios. A ferramenta entrega um texto pronto, mas o processo de aprendizado e desenvolvimento intelectual é deixado de lado. A mesma lógica se aplica a profissionais que dependem da IA para resumir documentos ou gerar códigos, sem realmente compreender o conteúdo ou a lógica por trás.
Como usar a IA a seu favor, sem perder a inteligência
O segredo, na visão de Cortiz, é encarar a IA como uma ferramenta de apoio, um copiloto, e não como o piloto automático. Ele enfatiza a importância de compreender como essas tecnologias funcionam e quais são seus limites. A interação deve ser ativa, com o usuário assumindo a responsabilidade pela revisão, correção e, principalmente, pela validação das informações geradas.
É importante que as pessoas entendam que a inteligência artificial é uma ferramenta, é um copiloto. Você tem que ir lá e verificar. Tem que ser uma pessoa ativa no uso da inteligência artificial.
Isso implica em desenvolver um olhar crítico sobre o que a IA produz. Perguntas como "Isso faz sentido?" ou "Essa informação é realmente precisa?" devem ser constantes. A IA é um modelo de linguagem que prevê a próxima palavra; ela não 'entende' o mundo da mesma forma que um ser humano. Consequentemente, pode gerar informações incorretas, as famosas "alucinações", que precisam ser detectadas e corrigidas pelo usuário.
O desafio é equilibrar a conveniência da IA com a manutenção das nossas próprias capacidades. A facilidade pode nos levar a caminhos de menor resistência intelectual, mas o desenvolvimento humano muitas vezes exige o oposto: o esforço cognitivo. A pesquisa de Cortiz e outros especialistas sugere que é possível ter o melhor dos dois mundos, desde que a consciência e a responsabilidade guiem o uso da inteligência artificial.