Pessoa com expressão pensativa, com elementos de inteligência artificial sobrepostos na cabeça, simbolizando o impacto da IA no cérebro.

IA está nos deixando mais burros? Psicóloga diz que sim

Por Miguel Viana • 3 min de leitura

A atenção das pessoas está em queda livre, e a inteligência artificial pode ser a nova vilã. Essa é a preocupação de Gloria Mark, psicóloga da Universidade da Califórnia, Irvine, que tem estudado como a interação humana com tecnologias digitais afeta nosso cérebro. Se no início de sua carreira as preocupações eram com o e-mail e a internet, hoje o foco são os chatbots e as ferramentas de IA.

Durante o evento SXSW London, Mark detalhou suas descobertas. Ela monitorou voluntários adultos usando sensores e rastreadores para analisar a atenção, humor e comportamento enquanto interagiam com dispositivos. Em 2003, a atenção média de um usuário era de cerca de dois minutos e meio. Em 2012, esse tempo caiu para aproximadamente 75 segundos. E, entre 2014 e 2020, o número despencou para alarmantes 47 segundos, em média.

“Eu pensava: Uau, isso é muito curto”, disse Mark durante a sessão em Londres, referindo-se aos dois minutos e meio de 2003.

A psicóloga alerta que essa constante mudança de foco não é apenas um incômodo, mas um gerador de estresse. “Nós pedíamos para as pessoas usarem monitores de frequência cardíaca, e... víamos uma correlação direta entre a rápida mudança de atenção e o aumento do estresse”, explicou. Além do impacto emocional, essa distração excessiva também prejudica a produtividade: “Leva mais tempo para realizar qualquer tarefa se você está mudando sua atenção. Não é bom para o desempenho. Não é bom para o nosso bem-estar emocional.”

Ferramentas de IA atrofiam o pensamento crítico?

A preocupação de Mark se estende ao uso de inteligência artificial. Quando delegamos tarefas como escrita, resumo e avaliação a ferramentas como o ChatGPT, pulamos a “profundidade de processamento” que é essencial para o aprendizado e o pensamento crítico. Segundo a psicóloga, essa “musculatura cognitiva” pode atrofiar pela falta de uso. Em outras palavras, quanto mais dependemos da IA para pensar por nós, menos exercitamos nosso próprio cérebro.

Ainda mais preocupante é o impacto na inteligência emocional. Companheiros de IA, diferente de relacionamentos humanos, não exigem esforço recíproco. Mark adverte que, se essa tendência continuar, a solidão, a falta de propósito e o declínio emocional podem se aprofundar.

O cenário é complexo, e não se restringe apenas aos adultos. Meses atrás, Meta (dona do Facebook e Instagram) e YouTube, do Google, foram condenados a pagar milhões de dólares em indenizações a uma mulher de 20 anos que alegou que os produtos das empresas a levaram a desenvolver um vício na infância. Mais recentemente, a Meta resolveu outro processo movido por um distrito escolar rural em Kentucky, que acusava a empresa de projetar produtos viciantes prejudiciais aos alunos, buscando mais de US$ 60 milhões para cobrir custos de saúde mental.

Como recuperar o controle do nosso cérebro?

A solução, para Mark, não é a abstinência tecnológica, mas a intencionalidade. A psicóloga não defende um banimento da tecnologia, mas sim um uso consciente. Ela sugere que as pessoas leiam livros, dispensem o GPS de vez em quando e prefiram encontros presenciais a interações virtuais. A lógica é simples: quanto mais difícil a tarefa, maior a recompensa. O esforço deliberado em atividades que exigem nossa atenção e pensamento crítico é o caminho para reverter a atrofia cognitiva e emocional.

A psicóloga da Universidade da Califórnia, Irvine, enfatiza que essa abordagem não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de usá-la de forma que não comprometa nossas capacidades mentais e emocionais.

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