Close-up de um chip de memória RAM com o logo da Microsoft ao fundo, simbolizando a batalha tecnológica

Crise de RAM e SteamOS: Como Microsoft ganhou tempo na guerr

Por Miguel Viana • 5 min de leitura

A Valve e seu sistema operacional SteamOS já realizaram um feito que incontáveis empresas, incluindo a Apple, tentaram por décadas: abalar o domínio do Windows no cenário dos jogos para PC. É verdade, os números ainda mostram a Microsoft como líder isolada. Mais de 92% dos computadores na Pesquisa de Hardware do Steam rodam alguma versão do Windows. Mas, sob a superfície, os ventos estão soprando para uma direção diferente.

Há cinco anos, esse número pairava

Em 2021, o percentual era de pouco mais de 96%. Uma década atrás, estava ligeiramente abaixo de 96%. E há quinze anos? Exatos 96%. Se voltarmos ainda mais no tempo, o Steam sequer rodava em algo que não fosse Windows, o que por si só é um testemunho da onipresença da Microsoft na era pré-Xbox. Mas as coisas mudaram, e o ritmo dessa mudança se acelerou recentemente.

A ascensão silenciosa do Linux nos jogos

Entre abril de 2021 e hoje, a participação do Linux deu um salto: de menos de 1% para mais de 5%. A princípio, o percentual pode parecer pequeno, uma fatia modesta do bolo total. Contudo, é uma movimentação de proporções inéditas. Historicamente, essas estatísticas mal se mexiam, mas a engenhosidade da Valve mudou o cálculo. A empresa não forçou desenvolvedores a criar versões nativas de seus jogos para Linux; em vez disso, investiu pesado em fazer com que

a biblioteca vasta e existente de títulos Windows simplesmente funcionasse no sistema do pinguim. Isso ela fez por meio de tecnologias como o Proton, uma camada de compatibilidade que emula a API do Windows, permitindo jogos funcionarem sem grandes adaptações do lado do desenvolvedor.

A estratégia, baseada no sucesso orgânico e no boca a boca entre gamers, se revelou um acerto. Ela contrasta fortemente com o fiasco de uma década atrás, quando a Valve tentou uma investida frontal contra o Windows. As Steam Machines, introduzidas no início dos anos 2010 com a promessa de levar os jogos de PC para a sala de estar, foram um tiro n'água. Em 2016, a plataforma

foi declarada "morta na chegada" por muitos veículos especializados, que ressaltaram a dificuldade de convencer os consumidores a adotar um novo ecossistema quando o Windows já era o padrão estabelecido e a interface não era suficientemente amigável para todos os usuários comuns, apenas entusiastas.

"Entre abril de 2021 e agora, a participação do Linux subiu de menos de 1 por cento para mais de 5 por cento."

Um fato curioso é que o SteamOS não é o único responsável por esse salto do Linux. A Valve não divulga os dados de seu sistema operacional de forma separada, mas a Arch Linux, que é a base para o SteamOS do Steam Deck, responde por cerca de 0,33% desse total de mais de 5%. Ou seja, outros distribuições Linux também estão ganhando espaço, indicando um interesse crescente da comunidade gamer por alternativas ao hegemonia da Microsoft.

O papel inesperado da 'RAMpocalypse'

A crise global de chips e, mais especificamente, a escassez e o encarecimento da memória RAM, apelidada de "RAMpocalypse", pode ter se tornado um inesperado aliado da Microsoft. Com a dificuldade de montar PCs de ponta a preços acessíveis, ou simplesmente de encontrar componentes no mercado, muitos jogadores e entusiastas ficaram impedidos de atualizar suas máquinas ou montar novos rigs. Isso, de certa forma, desacelerou a transição para plataformas alternativas e deu à Microsoft um fôlego valioso.

Imagine o cenário: um jogador decide construir um novo PC para aproveitar os últimos lançamentos com gráficos no máximo. Ele pesquisa sobre componentes, encontra o processador e a placa de vídeo dos sonhos, mas esbarra nos preços exorbitantes da RAM ou na simples indisponibilidade. Essa frustração pode levá-lo a adiar a compra ou a reconsiderar a necessidade de uma nova máquina. Nesse ínterim, o sistema operacional que ele já domina, o Windows, continua a ser a opção mais prática e menos custosa. A dificuldade em adquirir hardware de ponta reduziu a migração de jogadores para alternativas como o Steam Deck, que rodam o SteamOS.

Essa "pausa" forçada no ciclo de atualização da base instalada de hardware acabou por beneficiar a Microsoft. Se mais jogadores estivessem montando novos PCs sem problemas, a tentação de experimentar o SteamOS em um Steam Deck ou outras distribuições Linux para jogos poderia ter sido maior, acelerando ainda mais a erosão da dominância do Windows. A Intel, por exemplo, tem lidado com altos e baixos na demanda por seus processadores, mas a falta de RAM afetou o segmento como um todo.

Olhando para o futuro: e o Brasil nessa história?

No Brasil, a flutuação do dólar e os altos impostos sempre tornaram a montagem de PCs gaming uma aventura financeira. A "RAMpocalypse" amplificou essa dificuldade, colocando os gamers brasileiros em uma situação ainda mais delicada. A busca por alternativas passa por soluções mais acessíveis e, nesse contexto, plataformas como o Steam Deck — um computador portátil da Valve que usa o sistema SteamOS — ganham relevância. Apesar de ainda ter um preço elevado por aqui, ele oferece uma experiência de console com acesso à biblioteca do Steam.

A batalha entre Windows e SteamOS no PC gamer é mais do que uma disputa por fatia de mercado; é uma guerra pela alma dos jogos no PC. A Microsoft tem a vantagem da inércia, do legado e da vasta compatibilidade de software. Por outro lado, a Valve aposta em uma abordagem mais aberta, construindo um ecossistema baseado em Linux que oferece maior liberdade e, potencialmente, mais otimização a longo prazo. A "RAMpocalypse" apenas embaralhou as cartas por um tempo, dando um respiro à Microsoft, mas a tendência de crescimento do Linux nos jogos parece ser um movimento inexorável. Resta saber qual será o próximo trunfo de cada lado nessa longa e fascinante disputa.

Tags: SteamOS Microsoft Linux Gaming Hardware

Perguntas Frequentes

Qual a participação do Windows nos PCs para jogos, segundo a Pesquisa de Hardware do Steam?

Atualmente, mais de 92% dos PCs na Pesquisa de Hardware do Steam rodam alguma versão do Windows.

Como a participação do Linux em PCs para jogos mudou entre 2021 e hoje?

Nesse período, a participação do Linux em PCs para jogos subiu de menos de 1% para mais de 5%.

Qual tecnologia a Valve usa para fazer jogos de Windows rodarem no Linux?

A Valve usa principalmente o Proton, uma camada de compatibilidade, para permitir que jogos de Windows funcionem no Linux.

O que foi a 'RAMpocalypse' e como ela afetou a Microsoft?

A 'RAMpocalypse' refere-se à crise global de escassez e encarecimento da memória RAM, que deu à Microsoft um tempo valioso ao desacelerar a migração de jogadores para plataformas alternativas de hardware.