A decisão do governo Trump de bloquear o acesso estrangeiro aos modelos mais avançados da Anthropic tem uma história que começa com a Amazon. Conversas entre o CEO da gigante do e-commerce, Andy Jassy, e autoridades americanas, incluindo o secretário do Tesouro Scott Bessent, foram o estopim para a ação, conforme relataram pessoas familiarizadas com o assunto ao Wall Street Journal.
Pesquisadores da Amazon utilizaram uma série de prompts para extrair do Fable 5 informações que poderiam ser úteis em ataques cibernéticos. Jassy relatou este episódio às autoridades em uma sexta-feira, dia 12.
A escalada rápida
Pouco depois do relato de Jassy, a Casa Branca realizou uma reunião de emergência. Pesquisadores de segurança foram acionados para testar as alegações da Amazon. Os oficiais pediram à Anthropic que corrigisse as vulnerabilidades ou suspendesse o modelo. A solução adotada, então, foi bloquear o acesso de governos, empresas e indivíduos estrangeiros às ferramentas.
O presidente Trump deu luz verde à ação, mesmo com reservas sobre o impacto na inovação, de acordo com um alto funcionário da Casa Branca.
Anthropic suspendeu tudo
Em resposta à determinação, a Anthropic suspendeu o acesso aos modelos Mythos e Fable para todos os usuários, não apenas os estrangeiros, para garantir total conformidade. A medida teve um impacto interno considerável: muitos funcionários da Anthropic são nascidos fora dos EUA, o que os impediria de trabalhar nos modelos mais recentes sob as novas regras, conforme a própria empresa.
A Anthropic contesta
A empresa argumenta que as vulnerabilidades identificadas pela Amazon são “relativamente básicas” e que outros modelos de IA, já disponíveis publicamente, conseguem descobrir as mesmas informações. O relatório da Amazon mostrou que o Fable identificou bugs de segurança em pelo menos quatro programas de software com prompts específicos. No entanto, “não há evidências de que os pesquisadores acessaram a capacidade de converter esses bugs em código de ataque funcional”, disse Andrew Morris, fundador da empresa de cibersegurança GreyNoise Intelligence, ao WSJ, indicando que esse recurso seria protegido pelas salvaguardas do modelo.
O conflito de interesses
A complexidade da situação aumenta quando se considera o relacionamento da Amazon com a Anthropic. A Amazon é, ao mesmo tempo, investidora na Anthropic, fornecedora de chips para seus data centers e cliente dos modelos da empresa, utilizando-os para identificar vulnerabilidades em softwares. O alerta de Jassy ao governo foi interpretado por alguns como um aviso geral que, de forma surpreendente, escalou rapidamente para um bloqueio amplo pelo Departamento de Comércio dos EUA. O diretor nacional de segurança cibernética, Sean Cairncross, e o secretário de Comércio, Howard Lutnick, participaram das conversas que levaram à decisão.
O governo Trump historicamente demonstra desconfiança em relação à Anthropic. O Pentágono chegou a designar a empresa como “risco de segurança”, uma designação que a Anthropic contesta em dois processos judiciais. A administração desconfia das ligações da empresa com doadores de causas liberais e critica suas advertências sobre os riscos da inteligência artificial. A Anthropic, por sua vez, contratou vários ex-funcionários do governo Biden, e seu CEO, Dario Amodei, já criticou publicamente Trump.
David Sacks, conselheiro de IA da Casa Branca e crítico da Anthropic, comentou em redes sociais que a restrição foi imposta “com relutância”. Ele expressou a esperança de que a empresa “corrija o problema, o controle seja suspenso e o Fable volte à distribuição geral.”
Impacto no IPO
A suspensão dos principais modelos pode ter um impacto significativo nos planos da Anthropic de abrir capital ainda neste outono. Se usuários decidirem migrar para concorrentes, a principal beneficiária dessa situação seria a OpenAI, que possui seu próprio modelo de cibersegurança e está em negociações para acesso ampliado com o governo Trump.