Símbolos de moedas digitais e reais, com balanças da justiça ao centro, representando a regulação de criptoativos pelo Banco Central.

BC multa banco Topázio em R$ 16 mi; cripto no radar

Por Miguel Viana • 5 min de leitura

Um alerta soou alto no mercado financeiro brasileiro. O Banco Central não só aplicou uma multa robusta de R$ 16,2 milhões ao Banco Topázio, como também sentenciou a instituição a ficar dois anos sem realizar operações de câmbio ligadas à compra de criptoativos no mercado de balcão. A decisão, anunciada na segunda-feira (11), escancara uma preocupação crescente do regulador com a forma como as instituições financeiras lidam com a opacidade inerente a certas transações com moedas digitais.

Essa penalidade não veio do nada. É o resultado de uma análise minuciosa do Comitê de Decisão de Processo Administrativo Sancionador do BC, que identificou falhas graves nos mecanismos de controle do Topázio, especialmente em operações internacionais ocorridas entre 2020 e 2021. Basicamente, o banco não fez a lição de casa: não checou com diligência a origem do dinheiro nem a capacidade financeira de clientes envolvidos em transações com ativos digitais. Um descuido que, para o BC, significa um risco inaceitável ao sistema financeiro.

O caso do Banco Topázio lança luz sobre um acrônimo que, embora técnico, é vital para a integridade do mercado: PLD/FT. A sigla significa Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo. É o farol que guia bancos e todas as instituições financeiras para que não se tornem canais involuntários para atividades criminosas. No universo dos criptoativos, onde a agilidade e, por vezes, o anonimato das transações podem ser um chamariz, a atenção a essas regras precisa ser redobrada.

O que o BC exige na prevenção de lavagem de dinheiro

No cerne das regras de PLD/FT está a necessidade de "conhecer o cliente" — uma máxima conhecida como KYC (Know Your Customer). Isso implica em uma investigação aprofundada sobre quem está por trás das transações, sua real capacidade financeira e o motivo de movimentações atípicas. Instituições financeiras, por lei, são obrigadas a monitorar transações fora do padrão e, mais importante, reportar qualquer atividade suspeita a órgãos como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf.

Na prática, essas políticas exigem que instituições financeiras saibam quem são seus clientes, acompanhem movimentações consideradas fora do padrão e comuniquem operações suspeitas aos órgãos de fiscalização, como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf.

Esses controles vão desde análises cadastrais até a verificação da compatibilidade entre a renda declarada e os valores movimentados. Não é meramente burocracia; é uma linha de defesa contra o uso indevido do sistema financeiro por criminosos. Quando essa linha de defesa falha, como no caso do Topázio, o risco de que o dinheiro sujo de atividades ilícitas seja "lavado" no sistema aumenta exponencialmente, gerando problemas econômicos e sociais gravíssimos.

No processo que culminou na multa, o Banco Central apontou que o Banco Topázio processou cerca de US$ 1,7 bilhão em operações relacionadas à compra de ativos virtuais, envolvendo 15 empresas. O ponto crucial não foi o volume em si, mas a "ausência de procedimentos adequados para identificar os beneficiários finais dessas transações", disse o órgão. Isso significa que, em muitos casos, o Topázio não conseguiu dizer quem eram as pessoas ou entidades que, de fato, estavam se beneficiando das operações, tornando difícil rastrear a origem e o destino do dinheiro.

Outro ponto crítico levantado pelo comitê foi a falta de comunicação ao Coaf de operações consideradas atípicas, algo que é mandatório pelas normas de prevenção à lavagem de dinheiro. A falha se estendeu por três áreas principais de controle do banco: a análise da capacidade financeira dos clientes, os procedimentos cadastrais e os controles internos especificamente voltados à prevenção de lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. Para o BC, o combo de grande volume de operações e a fragilidade desses controles representaram um risco significativo para a estabilidade e a segurança do sistema financeiro brasileiro.

O setor de criptomoedas sob o escrutínio do regulador

Essa ação contra o Banco Topázio é um sinal claro de que o mercado de ativos virtuais está sob um escrutínio cada vez mais rigoroso das autoridades financeiras no Brasil. Durante a sessão que analisou o caso, Ailton Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, foi taxativo ao afirmar que o mercado de criptoativos exige um monitoramento mais rígido. E o aviso não foi só para o Topázio: medidas semelhantes podem e serão aplicadas contra outras instituições financeiras caso falhas parecidas em operações com criptomoedas sejam identificadas.

Desde 2015, o Banco Central tem expandido as regras para o setor, enquadrando algumas operações com criptoativos como câmbio e capitais internacionais, e criando exigências específicas para empresas que atuam nesse campo. Isso reflete uma tendência global: à medida que as criptomoedas ganham mais espaço e se tornam parte do fluxo financeiro principal, cresce a necessidade de regulamentação para coibir abusos e proteger o sistema contra atividades ilícitas. A multa ao Banco Topázio é um marco nessa jornada, mostrando que o regulador não hesitará em agir quando as regras da PLD/FT forem negligenciadas. A indústria de criptoativos, que busca legitimidade e aceitação, precisa se adaptar e cooperar para evitar que casos como este se repitam e manchem a reputação de um setor com tanto potencial.

Tags: PLD/FT criptomoedas Banco Central lavagem de dinheiro regulação financeira

Perguntas Frequentes

O que significa a sigla PLD/FT?

PLD/FT é a sigla para Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo, um conjunto de regras e mecanismos para impedir que o sistema financeiro seja usado para ocultar dinheiro de origem ilegal ou financiar atividades criminosas.

Qual foi a principal falha do Banco Topázio no caso?

A principal falha foi a ausência de procedimentos adequados para identificar os beneficiários finais de transações com ativos virtuais e a falta de comunicação de operações atípicas ao Coaf, representando um risco de lavagem de dinheiro.

Qual o valor da multa aplicada pelo Banco Central ao Topázio?

O Banco Central aplicou uma multa de R$ 16,2 milhões ao Banco Topázio, além de proibir a instituição de realizar operações de câmbio relacionadas a criptoativos por dois anos.

Esse caso indica uma mudança na postura do BC em relação às criptomoedas?

Sim. O caso sinaliza um escrutínio mais rigoroso do Banco Central sobre o mercado de ativos virtuais, com o regulador indicando que medidas semelhantes podem ser aplicadas a outras instituições com falhas nos controles de PLD/FT envolvendo criptomoedas.