Uma disputa de patentes, que parece ter saído de um roteiro de ficção científica, está agitando o mercado de celulares dobráveis. A Samsung, líder nesse segmento com seus aclamados Galaxy Z Fold e Galaxy Z Flip, está envolvida em um processo judicial que, surpreendentemente, pode levar ao banimento de seus aparelhos dobráveis do mercado americano. No centro da controvérsia, está a Lepton Computing LLC, uma empresa relativamente desconhecida que alega que a gigante sul-coreana infringiu nove de suas patentes de tecnologias móveis.
A ação foi protocolada no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Leste do Texas, uma localidade conhecida por ser palco de muitas batalhas de propriedade intelectual. Basicamente, a Lepton acusa a Samsung de ter utilizado indevidamente um vasto portfólio de patentes que cobrem desde a arquitetura física dos aparelhos até o software que viabiliza a transição de telas. É um processo que atinge diretamente o cerne da inovação dos dobráveis.
Quais aparelhos estão sob questionamento?
Não se trata de um modelo isolado. A denúncia da Lepton Computing abrange quase todos os dobráveis já produzidos pela Samsung, o que inclui a totalidade das séries Galaxy Z Fold e Galaxy Z Flip, juntamente com todas as suas versões sucessoras. Além disso, a empresa aponta para os dispositivos do tipo “TriFold”, que ainda estão em fase inicial no mercado, mas que, segundo a Lepton, também se baseiam em suas invenções.
As patentes citadas pela Lepton são significativas. Elas englobam as tecnologias de hardware essenciais para o funcionamento de um aparelho dobrável, desde os intrincados mecanismos de dobradiça – que permitem o movimento suave de abertura e fechamento – até as camadas protetoras dos avançados painéis OLED flexíveis. Até mesmo a organização inteligente de componentes como sensores, ímãs e câmeras é mencionada, demonstrando a amplitude da suposta infração.
Mas a questão não para por aí. O processo também se estende ao campo do software, focando em um recurso crucial: o App Continuity. Esta funcionalidade, que permite que um aplicativo "salte" sem interrupções da tela externa para a interna (e vice-versa), é um dos grandes diferenciais dos dobráveis. A Lepton Computing afirma categoricamente que todas essas inovações, tanto em hardware quanto em software, utilizaram propriedades intelectuais que ela registrou muito antes de a Samsung as implementar.
O Lepton Flex: um protótipo com história?
No centro da narrativa da Lepton Computing está a história de um pioneiro: o “Lepton Flex”. A empresa se apresenta como uma verdadeira inovadora do setor, descrevendo este protótipo como o primeiro smartphone dobrável desenvolvido nos Estados Unidos. E é aqui que a trama ganha mais interesse.
A empresa sustenta que iniciou discussões sobre uma possível colaboração técnica com a Samsung ainda em 2013.
Ou seja: anos antes de a Samsung lançar seu primeiro Galaxy Fold, a Lepton alega já ter compartilhado "detalhes técnicos e conceitos de protótipos" durante essas supostas conversas. A acusação é grave: má-fé. A Lepton sugere que a sul-coreana não apenas usou esse conhecimento para desenvolver seus próprios produtos, como o fez ciente de que estava infringindo patentes alheias. É uma versão digital da história de "roubar a ideia do colega".
Contudo, o cenário recebeu novos elementos com um relatório vindo da Coreia do Sul. Esse documento trouxe questionamentos sobre a cronologia da ação, indicando que a data de registro mais antiga citada para as patentes da Lepton seria 29 de junho de 2021. Isso levanta uma grande questão: como a Lepton poderia ter discutido patentes em 2013 se as registrou apenas em 2021?

Dobráveis da Samsung são citados em processo (Imagem: Divulgação/Samsung)
"Patent Trolls" no horizonte: o que isso significa?
Tudo indica que essa história pode se enquadrar em um fenômeno conhecido no mundo jurídico da tecnologia: os "patent trolls". Empresas com o perfil da Lepton Computing, que detêm patentes mas não produzem ou comercializam produtos ativamente – como a Lepton, cujo site promete "produtos em breve" mas não mostra nada – são frequentemente associadas a esse termo. O objetivo principal dessas companhias, muitas vezes, não é competir no mercado, mas sim buscar acordos financeiros vultosos, royalties ou indenizações.
E a Lepton está determinada. No processo, ela solicita não apenas o pagamento de danos monetários – o que pode representar uma fortuna –, mas também royalties contínuos sobre as vendas dos dobráveis e, o mais impactante, uma liminar permanente para proibir a venda de todos os dobráveis da Samsung em solo americano. Imagine o impacto de tal decisão para a Samsung, que tem investido significativamente nesse nicho.
Implicações para o Brasil
Embora a ação ocorra nos Estados Unidos, suas ramificações podem ser sentidas globalmente. O mercado de tecnologia é interconectado. Se a Samsung for obrigada a modificar seus produtos ou cessar as vendas em um mercado tão crucial quanto o americano, isso pode impactar a disponibilidade, preço e até mesmo as futuras inovações dos dobráveis em outras regiões, incluindo o Brasil. Por aqui, os dobráveis da Samsung, como o Galaxy Z Flip 5 e o Galaxy Z Fold 5, têm encontrado aceitação e são considerados produtos de ponta, representando a vanguarda tecnológica.
A Samsung, vale lembrar, possui uma vasta experiência em disputas de propriedade intelectual. A empresa já enfrentou e venceu (ou negociou) inúmeras batalhas jurídicas contra concorrentes e empresas de patentes. Ou seja: não se espera uma resolução fácil. A sul-coreana deve contestar cada ponto levantado pela Lepton, o que pode prolongar a batalha judicial por anos.
Seja como for, o desfecho mais provável, caso a Samsung identifique algum mérito nas alegações da Lepton – e para evitar um banimento que custaria bilhões –, seria um acordo financeiro. Um acordo de royalties que manteria a comercialização de seus dobráveis sem interrupções. Resta saber o quanto essa disputa impactaria as finanças da gigante sul-coreana e, mais importante, como isso pode influenciar o futuro da inovação em celulares dobráveis.