IA: CFOs usam para custo, mas não investem. Entenda o parado

IA: CFOs usam para custo, mas não investem. Entenda o parado

Por Anselmo Bispo • 6 min de leitura

A Inteligência Artificial (IA) se tornou uma ferramenta essencial no ambiente corporativo, auxiliando na tomada de decisões e otimizando operações. No entanto, uma pesquisa recente da Deloitte revela uma situação curiosa entre diretores financeiros (CFOs).

Embora a maioria já utilize a IA em suas rotinas, a disposição para investir significativamente na tecnologia ainda é baixa. Essa disparidade levanta questões importantes sobre a maturidade e a estratégia das empresas em relação ao futuro digital.

A IA no setor financeiro

Em uma grande corporação europeia, um CFO acessa sua estação de trabalho. Em poucos segundos, um sistema de análise preditiva, impulsionado por um modelo de linguagem avançado, sugere os próximos passos estratégicos. O que antes parecia ficção científica, hoje é a realidade.

Essa não é uma iniciativa isolada de um departamento de TI. Pelo contrário, é a rotina em muitas empresas, e os números confirmam essa tendência. A IA influencia cada vez mais as decisões financeiras.

Uma pesquisa da Deloitte, conduzida com 100 diretores financeiros holandeses entre setembro e outubro de 2025, trouxe dados surpreendentes. O estudo indicou que 90% dos CFOs entrevistados já utilizam a Inteligência Artificial para embasar suas decisões.

Além disso, mais de um terço desses executivos espera que, em um prazo de cinco anos, a IA seja a base para mais da metade de suas escolhas mais importantes. Essa expectativa demonstra a confiança crescente que os líderes financeiros depositam na capacidade analítica e preditiva da tecnologia.

O investimento em IA: uma análise aprofundada

Os números apresentados pela Deloitte são expressivos e indicam uma adoção ampla da IA no dia a dia financeiro. Contudo, ao cruzar esses dados com a disposição para investir, o cenário se torna peculiar e até contraditório.

Se a maioria dos CFOs já utiliza IA e tem expectativas tão altas para o futuro da tecnologia, seria lógico esperar um fluxo robusto de investimentos nessa área. No entanto, a realidade é diferente. O dinheiro não acompanha o mesmo ritmo da expectativa.

A mesma pesquisa da Deloitte revela que mais de 80% das organizações planejam destinar menos de um quarto do orçamento de tecnologia para IA nos próximos anos. Esse dado expõe uma clara diferença entre a percepção do valor da IA e a alocação de recursos para desenvolvê-la e expandir seu uso.

Os executivos reconhecem o potencial transformador da Inteligência Artificial, mas demonstram uma notável relutância em fazer os investimentos necessários para que essa transformação se concretize plenamente. Esse comportamento pode gerar gargalos no médio e longo prazo.

A IA como ferramenta de corte de custos

O foco principal da utilização da IA, segundo os CFOs, parece ser a eficiência operacional e a redução de despesas. O estudo indica que 70% dos CFOs europeus esperam crescimento de receita em 2026. Como? Através da redução de pessoal e da contratação de serviços de IA.

Essa abordagem reflete a busca por "fazer mais com menos". Na prática, significa buscar crescimento pela otimização e economia, e não necessariamente por investimentos em novas tecnologias ou mercados.

Empresas de serviços e tecnologia estão em uma posição mais vantajosa neste cenário. Para elas, os ganhos de produtividade gerados pela automação podem compensar a redução de mão de obra. Isso permite conciliar crescimento de receita com, por exemplo, a otimização de equipes.

Por outro lado, o levantamento aponta que empresas manufatureiras, com perspectivas de receita mais frágeis, podem recorrer à redução de trabalhadores apenas para estabilizar operações, sem um crescimento real à vista. Nesses casos, a IA atua como um pilar de sustentação, mas não necessariamente de expansão.

O novo papel do CFO e as lacunas de habilidade

Outro dado relevante da pesquisa é o crescimento da influência do CFO. Cerca de 80% dos diretores financeiros afirmaram que seu poder dentro do conselho de administração aumentou nos últimos cinco anos. O CFO deixou de ser apenas o guardião dos números para se tornar um estrategista fundamental na direção dos negócios.

Contudo, esse aumento de poder encontra um obstáculo significativo: a escassez de talentos. Mais da metade dos CFOs identificou carências em habilidades cruciais dentro de suas próprias equipes, especialmente em áreas como dados, tecnologia digital e Inteligência Artificial.

Isso cria uma situação delicada: o executivo tem mais voz no conselho e a intenção de usar a IA para decisões rápidas e assertivas, mas não possui os profissionais capacitados para construir e gerenciar essa infraestrutura internamente.

Essa defasagem de habilidades pode limitar o potencial da IA. Sem equipes qualificadas para desenvolver, implementar e interpretar os resultados complexos gerados pela IA, a tecnologia pode não entregar todo o seu valor. A formação e o desenvolvimento de talentos em programação e ciência de dados se tornam, portanto, tão cruciais quanto o próprio investimento direto em hardware e software de IA.

Conclusão: a IA na encruzilhada da decisão financeira

A pesquisa da Deloitte expõe um momento crucial para a Inteligência Artificial no mundo corporativo. Por um lado, ela é amplamente adotada e vista como fundamental para decisões futuras. Por outro, o investimento real em sua capacidade plena ainda é insuficiente.

Este cenário, de usar a IA principalmente para corte de custos enquanto se reluta em investir na sua expansão e inovação, pode limitar o potencial de crescimento e diferenciação das empresas. O "fazer mais com menos" é um modelo eficiente, mas pode não ser suficiente em um mercado cada vez mais dinâmico e competitivo.

A carência de profissionais qualificados em IA e ciência de dados também aponta para a necessidade de um foco maior na capacitação e desenvolvimento de equipes.

O futuro da IA nas finanças dependerá não apenas da sua capacidade de gerar eficiência, mas também da vontade real dos líderes de apostar e investir em seu potencial transformador.