A câmera digital empoeirada da sua adolescência ou aquele toca-discos que parecia relíquia de antiquário? Ambos ganharam um novo status. Milhões de jovens estão resgatando tecnologias que pareávamos à 'velha guarda', numa guinada que parece desafiar a lógica do avanço digital ininterrupto. O que seria uma tendência passageira? Ou um sintoma de uma relação com a tecnologia que, para a Geração Z, já chegou à exaustão?
Essa redescoberta do passado tecnológico não é uma mera curiosidade. Em 2025 – um ano que já se anuncia com forte retorno ao analógico –, a fotografia se tornou um epicentro dessa mudança, com a volta de câmeras digitais retrô e um movimento das marcas para lançar produtos que remetem ao analógico. O resultado? Fotos propositalmente imperfeitas, com flashes estourados e aquele ruído característico de um hardware limitado, dominando feeds sociais, especialmente entre os mais novos. Um contraste e tanto com a obsessão por imagens polidas e filtros em tempo real que definiram a década anterior.
Para Marina Roale, Head de Insights e sócia da Consumoteca, o cerne dessa reviravolta está na forma como cada geração internalizou as transformações digitais. Ela conta que existe uma diferença crucial na narrativa por trás da tecnologia: “Os millennials viram o futuro com otimismo, a tecnologia era a promessa. Para a Geração Z, o cenário mudou. A tecnologia tem perdido esse lugar de frescor para se tornar um gatilho de ansiedade, especialmente devido às rápidas transformações da IA e ao medo de substituição pelas máquinas.”
“A gente não vai se libertar, a tecnologia ainda é importante e entrega muita coisa boa, mas estamos num momento de negociação importante de como viver com a tecnologia, de como ter controle e poder ter, de repente, alguns gadgets que te permitem ficar off da internet mas ainda assim manusear alguma coisa tecnológica se torna uma solução”, indica Marina Roale.
A sedução da desconexão em tempos ultra-conectados
Para uma geração que nasceu e cresceu com um smartphone na mão – os famosos nativos digitais –, o que se tornou a verdadeira inovação é, paradoxalmente, a desconexão. A busca por uma experiência de vida mais analógica e menos mediada por algoritmos se apresenta como um caminho de novidade. É nesse vácuo que o mercado de vinis, CDs e até mesmo os ultrapassados mp3 players não apenas sobrevive, mas conquista novos adeptos, crescendo mesmo em um universo dominado por gigantes do streaming. Até mesmo os celulares minimalistas, os chamados dumbphones, se tornaram uma espécie de manifesto, uma ferramenta para o “detox digital” que tantos almejam.
Marina ainda explica que a redescoberta do passado para a Geração Z tem um caráter quase antropológico. É a primeira vez que esses jovens entram em contato com dispositivos de uma época que eles não viveram, gerando uma sensação de descoberta genuína.
“Crescer na era da internet é você já crescer num mundo onde já existe muito um cruzamento de referências de música, estética, questões de moda, discursos. Então, eles [Gen Z] ficam sempre em busca de experimentar algo novo, algo que ainda não viram”, pontua a Head de Insights da Consumoteca.
Essa busca não é apenas por produtos, mas por uma experiência que o digital, em sua onipresença, não consegue mais oferecer. O click do obturador de uma câmera analógica, o ritual de colocar um vinil para tocar ou a ausência de notificações em um dumbphone são pequenas fricções que resgatam um senso de presença, algo raro na ditadura da produtividade e da informação instantânea.
A nostalgia como refúgio e o paradoxo da "fricção"
Resgatar e reviver memórias ou produtos do passado não é, de fato, uma novidade dos nossos tempos. A especialista em consumo afirma que a nostalgia é um movimento cíclico, presente em diferentes momentos da história, sempre conectando a memória e a emoção a um grupo de pessoas interessadas em explorar e resgatar algo de um período antigo.
Esse comportamento funciona como um poderoso refúgio para lidar com uma grande macrotensão da atualidade: a exaustão gerada pelo ritmo frenético do mundo e a fadiga das telas. A constante demanda por atenção, a sobrecarga de informações e a pressão por um desempenho impecável nas redes sociais têm um custo psicológico significativo. Nesse contexto, a volta ao analógico oferece uma pausa, um momento de desaceleração. No entanto, Marina adverte que essa é uma tendência que, embora forte, pode ser passageira, dada a velocidade com que as coisas evoluem no mundo digital. O embate entre o mundo físico e digital, e o papel da “fricção” – as pequenas resistências e rituais que as tecnologias analógicas exigem – continuarão em constante negociação.
Em um futuro onde a inteligência artificial promete otimizar cada segundo de nossas vidas, será que a humanidade encontrará um equilíbrio entre a eficiência do digital e o conforto do analógico? Ou essa "revolta" contra o algoritmo é apenas o primeiro capítulo de uma redefinição muito maior da nossa relação com tudo o que é tecnológico?