A forma como compreendemos a memória no cérebro acaba de ganhar um novo capítulo. O neurocientista Oswald Steward, da Universidade da Califórnia em Irvine (UCI), foi laureado com o Prêmio Kavli de Neurociência de 2026. A honraria celebra suas descobertas que remodelaram a visão científica sobre como o cérebro forma e armazena memórias.
Durante décadas, a percepção predominante era a de que a memória, incluindo o aprendizado e o esquecimento de informações, era gerada exclusivamente no soma, o corpo celular dos neurônios. Steward, no entanto, desafiou essa ideia ao demonstrar que a memória pode ser formada nos dendritos, as projeções semelhantes a árvores que recebem sinais de outros neurônios.
Onde a memória realmente se forma?
A pesquisa de Oswald Steward focou no papel do RNA mensageiro (mRNA) nos dendritos. Ele descobriu que o mRNA, que carrega as instruções genéticas do DNA para a produção de proteínas, está presente e funcional nos dendritos. Essas proteínas são cruciais para fortalecer as sinapses, as conexões entre os neurônios, que são a base física da memória.
“A ideia de que o processamento de mRNA e a síntese de proteínas ocorrem nos dendritos foi revolucionária na época”, afirmou Steward em um comunicado. “Foi uma descoberta que mudou a forma como os cientistas pensam sobre a memória.”
Os dendritos, antes vistos apenas como meros receptores passivos, revelaram-se centros ativos de processamento de informações. A capacidade de sintetizar proteínas localmente significa que os dendritos podem modificar suas próprias conexões sinápticas de forma autônoma, sem precisar de instruções diretas do corpo celular do neurônio. Isso indica um nível de complexidade e independência local para a formação de memórias que antes era subestimado.
O trabalho seminal de Steward foi publicado inicialmente em 1982. Nele, ele descreveu a presença de polissomos, complexos de ribossomos que traduzem o mRNA em proteínas, nos dendritos. Essa evidência direta jogou por terra a ideia de que a síntese proteica que sustenta a memória ocorria exclusivamente no corpo celular.
Desde então, as pesquisas de Steward continuaram a expandir nossa compreensão sobre a base molecular da plasticidade sináptica e como ela se relaciona com diversas funções cerebrais, incluindo o aprendizado e a memória. Seus estudos têm implicações não apenas para a compreensão fundamental do cérebro, mas também para o desenvolvimento de tratamentos para doenças neurodegenerativas e distúrbios cognitivos.
O Prêmio Kavli de Neurociência é concedido a cada dois anos e reconhece avanços científicos que impactam significativamente nossa compreensão do cérebro e seu funcionamento. A premiação de Steward sublinha a importância duradoura de suas descobertas para o campo da neurociência.