A hegemonia das telas nos nossos pulsos pode estar com os dias contados. Quando os primeiros Fitbits surgiram, eram discretos, focados em dados, sem um display chamativo. A popularidade dos smartwatches, contudo, fez com que quase todo vestível ganhasse uma telinha. Agora, o pêndulo parece balançar na direção oposta, e o Google está direcionando seus esforços para isso. A empresa acaba de anunciar o Fitbit Air, um vestível sem tela alguma, e um novo aplicativo, o Google Health, que promete ser a central de inteligência para todos esses dados de saúde.
É uma reviravolta interessante, que resgata a ideia original de um assistente discreto no pulso. Empresas como a Whoop já seguem esse caminho, oferecendo dispositivos que são, antes de tudo, rastreadores de dados, sem a necessidade de um relógio tradicional. O Google adota a tendência: o Fitbit Air não tem tela, mas está repleto de sensores capazes de fornecer uma grande quantidade de informações para o novo aplicativo Google Health. E, para decifrar essa montanha de dados, a gigante de Mountain View ainda oferece um recurso de coach de saúde movido a inteligência artificial, prometendo orientar o usuário sobre o que tudo isso realmente significa.
Fitbit Air: discrição e tecnologia
O Fitbit Air em si é um pequeno "puck" de plástico, com cerca de 3,5 cm de comprimento por 1,7 cm de largura. Ele se encaixa em diversas pulseiras que mantêm seus sensores firmemente em contato com o pulso. Diferente de um smartwatch comum, não há uma tela apontando para cima; todo o dispositivo fica coberto pelo tecido ou plástico da pulseira, resultando em um visual mais discreto e potencialmente versátil. Quem diria que o Google, que nos acostumou com designs mais "funcionais", investiria tanto em estilo? A empresa oferece uma gama de cores e opções, incluindo uma edição especial “Steph Curry”. Se você ouviu rumores sobre o famoso jogador de basquete ter sido visto usando um novo Fitbit sem tela, era exatamente isso.

Opções de pulseiras ativas para o Fitbit Air.
Crédito: Google

Pulseiras de alto desempenho para o Fitbit Air.
Crédito: Google

Uma pulseira mais elegante, para momentos que exigem um toque de sofisticação.
Crédito: Google
O fim da marca Fitbit e o surgimento do Google Health
Junto do Fitbit Air, o Google também revelou que o aplicativo Fitbit, como o conhecemos, será descontinuado. Em seu lugar, teremos o Google Health. Esta transição, que deve ocorrer nos próximos 12 a 18 meses, unifica a plataforma de dados de saúde do Google, incluindo tudo, desde o Google Fit até o Fitbit, num só lugar. Os usuários existentes do Fitbit terão suas informações migradas para o Google Health, garantindo uma continuidade no acompanhamento. A promessa é de uma experiência mais simplificada e integrada, algo que, para ser justo, já era esperada há algum tempo, considerando a aquisição da Fitbit pelo Google em 2021.
Essa é uma estratégia clara para posicionar o Google como um participante ainda mais forte no mercado de saúde digital. O aplicativo Google Health foi projetado para ser um hub central, reunindo dados de sono, atividade física, frequência cardíaca, estresse e uma série de outros indicadores. A ideia é que ele não apenas mostre os números, mas também ofereça análises e recomendações personalizadas, impulsionadas pela inteligência artificial. Para o Brasil, isso pode significar um acesso mais facilitado a ferramentas de saúde preventiva, especialmente em um cenário onde a telemedicina e o acompanhamento digital ganham cada vez mais espaço.
“Queremos transformar a forma como as pessoas interagem com sua saúde, tornando-a mais proativa e menos reativa”, explicou um porta-voz do Google à Ars Technica, frisando o foco na prevenção através de informações claras e acessíveis.
No coração dessa nova experiência está o assistente de IA para saúde. Funciona assim: o Fitbit Air coleta seus dados – sua noite de sono foi fragmentada? Seu ritmo cardíaco teve picos incomuns? – e o Google Health os processa. O assistente de IA então entra em cena para interpretar esses padrões e, teoricamente, oferecer conselhos úteis. Por exemplo, ele pode sugerir uma rotina de exercícios mais adequada, indicar um horário para deitar-se ou até mesmo alertar sobre possíveis sinais de estresse. A promessa é ser um companheiro digital para o bem-estar, sempre presente, mas nunca intrusivo.
A aposta na experiência sem tela
A decisão de remover a tela não é meramente estética. É uma declaração de intenção. Sem uma tela brilhante exigindo atenção constante, o Fitbit Air busca ser um acessório mais discreto e menos "tecnológico" no pulso. Essa abordagem pode atrair um público que busca os benefícios do monitoramento de saúde, mas não quer a distração de um smartwatch tradicional. A autonomia da bateria também deve ser um fator chave, já que telas, especialmente as de alta resolução, são grandes consumidoras de energia.
Além disso, o foco em uma experiência controlada via aplicativo e assistente de IA libera o hardware do vestível para ser menor, mais leve e potencialmente mais confortável. Isso abre portas para uma maior aceitação em diferentes contextos, desde o esporte de alto desempenho até o uso diário casual. Imagine ter acesso a estatísticas detalhadas do seu sono sem precisar apertar um botão ou deslizar o dedo em uma telinha à meia-noite.
É inegável que a integração da inteligência artificial é o grande diferencial aqui. Não basta coletar dados; é preciso interpretá-los de forma significativa. Com a IA agindo como um "tradutor" entre os números brutos e a compreensão humana, o Google espera democratizar o acesso à informação de saúde, permitindo que mais pessoas tomem decisões informadas sobre seu bem-estar.
Ainda é cedo para dizer se essa aposta do Google em um futuro sem telas nos vestíveis será o próximo grande passo. Mas uma coisa é certa: a empresa parece empenhada em redefinir nossa relação com a tecnologia de saúde, tornando-a mais invisível fisicamente, porém mais inteligente e presente em nossas vidas digitais. Será que estamos presenciando o início de uma nova era para os wearables, onde a funcionalidade silenciosa da IA supera o apelo de um visor colorido?