A tensão entre Elon Musk e a OpenAI, que já não era pouca, parece ter escalado para um novo patamar de surpresas dignas de um roteiro de ficção científica. Em meio a um processo judicial que expõe as entranhas da startup de inteligência artificial, o presidente Greg Brockman trouxe à tona uma acusação curiosa: Musk, o visionário por trás da SpaceX, teria almejado o controle total da OpenAI e uma cifra bilionária para financiar, pasmem, a colonização de Marte.
O depoimento de Brockman, prestado na Califórnia, lança uma nova luz sobre o complexo relacionamento entre Musk e a empresa que ele mesmo ajudou a fundar. Em um cenário onde a inteligência artificial molda o futuro, as ambições para além da Terra parecem ter permeado as discussões internas da OpenAI.
A acusação central de Musk contra a OpenAI
Musk move uma ação judicial contra a OpenAI, acusando a empresa e seu CEO, Sam Altman, de terem se desviado da missão original de ser uma organização sem fins lucrativos. A transição para um modelo com fins lucrativos é o cerne da disputa, onde o empresário alega ter sido enganado após doar impressionantes US$ 38 milhões para a iniciativa inicial da companhia.
A briga legal não é pequena. Musk busca uma indenização colossal de US$ 150 bilhões a serem pagos pela OpenAI. Além disso, ele exige que Altman e Brockman sejam removidos de seus cargos de liderança, consolidando uma retaliação por uma suposta traição ideológica. Vale lembrar que Musk deixou o conselho da OpenAI em fevereiro de 2018, e hoje comanda sua própria empreitada em IA, a xAI, recém-fundida com a SpaceX.

Brockman participou do julgamento pelo segundo dia seguido – Imagem: Reprodução
As reivindicações de Elon Musk para a OpenAI
Greg Brockman detalhou que, em 2017, Elon Musk expressava preocupações sobre a capacidade da OpenAI, como uma organização sem fins lucrativos, de arrecadar o capital necessário para desenvolver modelos avançados de IA. Segundo o presidente da empresa, Musk defendia veementemente uma mudança na estrutura corporativa. Mas não parava por aí: o bilionário deixou claro que queria assumir a liderança da OpenAI caso essa transformação acontecesse.
“Ele disse que precisava de US$ 80 bilhões para criar uma cidade [em Marte]”, declarou Brockman, referindo-se a uma reunião crucial.
No centro da controvérsia, Brockman descreveu um encontro particularmente tenso onde Musk alegou que merecia uma participação majoritária na empresa devido à sua vasta experiência empresarial. A justificativa, sempre segundo o depoimento, era de que ele usaria essa participação para construir uma cidade autossustentável em Marte.
Ainda de acordo com Brockman, Musk não apenas exigia essa fatia majoritária, mas também o “controle total” da OpenAI.
“No final, ele precisava de controle total”, afirmou Brockman, completando que Musk teria dito que decidiria quando abrir mão desse controle.
Era uma condição que Altman, o outro candidato à liderança, e os demais co-fundadores não estavam dispostos a conceder. Essa inflexibilidade de Musk na questão do controle total teria sido um dos pontos de discórdia mais intransponíveis na época.
Repercussões e o futuro da IA de Elon Musk
A revelação de que Elon Musk teria condicionado o apoio financeiro e estratégico à OpenAI ao seu desejo de colonizar Marte adiciona uma camada de complexidade à já intrincada história da empresa. A visão de Musk para a humanidade, que frequentemente mistura tecnologia de ponta com ambições espaciais, parece ter colidido com os objetivos internos da OpenAI, que focavam no desenvolvimento de uma IA segura e benéfica para todos. A partir de 2018, já sem Musk no conselho, a empresa trilhou seu próprio caminho.
A xAI e a SpaceX, empresas que Musk efetivamente controla, são exemplos de como ele gosta de ver suas visões executadas. A xAI, embora mais recente, já demonstra a rápida capacidade de Musk de mobilizar recursos e talentos em uma nova frente de inteligência artificial. A pergunta que fica é: se Musk tivesse tido o controle total da OpenAI, como o cenário atual da IA seria diferente? A prioridade seria ainda o desenvolvimento de modelos como o ChatGPT para uso generalizado, ou a exploração espacial teria um papel mais central?
O julgamento da Califórnia pode não apenas esclarecer os termos do rompimento entre Musk e a OpenAI, mas também redefinir as expectativas sobre a governança e a missão das grandes empresas de tecnologia, especialmente aquelas que lidam com um recurso tão estratégico quanto a inteligência artificial. A narrativa sugere que, para Musk, a tecnologia é um meio – por vezes, um trampolim – para objetivos muito maiores, mesmo que envolvam outros planetas.