Gráfico ou painel de dados com indicadores de maturidade em inteligência artificial numa tela de computador.

IA no Brasil: Avanço na adoção X maturidade tardia das empre

Por Anselmo Bispo • 5 min de leitura

A inteligência artificial já não é mais exclusividade de filmes de ficção científica ou de laboratórios de pesquisa. Ela pulou para dentro das empresas, virou tema de reunião e, para muitos, ferramenta de trabalho diário. Mas, por aqui no Brasil, o entusiasmo com a nova tecnologia ainda não se traduziu em ganhos concretos de produtividade e resultados.

É o que revela um novo relatório do Templo, uma empresa que se dedicou a desbravar as soluções de IA para negócios. A pesquisa, que mapeou a maturidade em IA corporativa no país, acende um alerta: mesmo com o avanço na adoção, ainda estamos engatinhando para extrair o real potencial dessa tecnologia no ambiente corporativo.

O estudo é robusto, entrevistou 382 profissionais de diversas áreas e hierarquias, e o veredito é claro: 61% dessas empresas operam abaixo do que seria considerado um nível intermediário de maturidade em IA. Isso significa que, embora o acesso às ferramentas tenha se tornado mais democrático — com o ChatGPT virando febre nas mesas de trabalho —, o grande desafio agora está em aplicar essa tecnologia de forma estratégica e estruturada. Não basta ter a Ferrari, é preciso saber dirigi-la para chegar ao destino desejado.

“As empresas já deram o primeiro passo, que é o acesso à inteligência artificial. O desafio agora é transformar esse uso individual em ganho coletivo, com impacto direto na operação e nos resultados do negócio”

Quem afirma é Herman Blesser, CEO do Templo, que resume bem a fase de transição que o mercado brasileiro atravessa. O uso de IA em tarefas pontuais, para otimizar um e-mail ou gerar um rascunho de apresentação, já é uma realidade. Mas a integração em processos mais amplos, que realmente mudem a forma como a empresa funciona, ainda está longe de ser a norma. É a diferença entre usar uma calculadora e construir um algoritmo que resolve problemas complexos.

A pesquisa do Templo revela alguns gargalos importantes que impedem as empresas brasileiras de decolarem de vez com a IA:

Automação em xeque e o dilema das receitas

Um dos pontos mais críticos levantados pelo estudo foi a baixa automação de processos. Numa escala de 0 a 100 pontos, essa dimensão amargou um modesto 35,0. É um número que grita: o uso de IA ainda está muito fragmentado em tarefas manuais, quase como um paliativo, e não como uma engrenagem que se conecta e otimiza todo o fluxo de trabalho da organização. Imaginar um futuro sem processos automatizados é como tentar mover rochas gigantes usando apenas as mãos, enquanto outras empresas já têm guindastes.

E a situação fica ainda mais delicada quando olhamos para as áreas diretamente ligadas à receita. Times de Comercial/Vendas, por exemplo, registraram apenas 47,4 pontos, enquanto Revenue Management foi ainda pior, com 43,9. Essas são as áreas que, na teoria, mais se beneficiariam de uma IA bem implementada, com previsão de vendas, personalização de ofertas e otimização de preços. O fato de estarem entre as menos maduras sugere um atraso significativo na aplicação estratégica da tecnologia onde ela poderia gerar maior impacto financeiro.

Paradoxalmente, áreas como Recursos Humanos (61,0) e Educação Corporativa (61,3) lideram o ranking. A explicação pode estar em casos de uso mais claros e focados, como recrutamento assistido por IA ou treinamentos personalizados, que já demonstraram eficácia e ganharam a confiança dos gestores. Fica claro que, para o salto de maturidade, é preciso estender essa confiança e esses casos de uso para o coração do que faz a máquina girar: as vendas e a geração de receita.

Concentração de ferramentas e o hiato técnico

Outro dado que salta aos olhos é a quase hegemonia de algumas plataformas. Segundo o Templo, 84% dos profissionais usam principalmente Copilot, Google Gemini e ChatGPT. Esses são os “queridinhos” do momento, as interfaces que democratizaram o acesso à IA. Contudo, ferramentas mais robustas e voltadas para automação e integração, como Zapier e Power Automate, foram citadas por meros 2,9% dos respondentes. Isso indica que a maioria está utilizando a IA como um assistente de produtividade pessoal, e não como um orquestrador de processos complexos que conectaria diferentes sistemas e automações.

A pesquisa ainda desnuda uma assimetria interessante: os profissionais até têm uma postura positiva e estão abertos à tecnologia, com pontuações altas em Cultura de Inovação (67,9) e Ética no Uso (65,1). Isso é excelente, mostra um terreno fértil para o crescimento. No entanto, o lado técnico fica a desejar. A Automação de Workflows (35,0) e o Conhecimento Conceitual (44,6) foram avaliados criticamente. É como ter um time com muita vontade de vencer, mas que ainda não domina as regras do jogo ou as táticas avançadas necessárias.

O score médio geral da amostra ficou em 55,6 de 100 pontos. É um número que posiciona as empresas brasileiras em uma zona de transição, um limbo. Elas já saíram do estágio de mera curiosidade, mas ainda não alcançaram a integração estratégica. As ferramentas estão presentes, sim. Mas os processos para realmente extrair valor consistentemente delas, aqueles que impulsionam um “vibe coding” corporativo, ainda estão em construção. É um convite para olhar além do uso superficial e investir na infraestrutura e no know-how que a IA realmente demanda. A revolução está batendo à porta, mas parece que ainda estamos procurando a chave para abri-la por completo.

Tags: inteligência artificial maturidade de IA empresas brasileiras automação Templo

Perguntas Frequentes

Qual o principal desafio das empresas brasileiras com a IA, segundo a pesquisa?

O principal desafio é transformar o uso individual de ferramentas de IA em ganhos coletivos e impacto direto nos resultados do negócio, elevando a maturidade na integração e automação de processos.

Quantas empresas operam abaixo do nível intermediário de maturidade em IA?

O estudo do Templo aponta que 61% das empresas brasileiras operam abaixo do nível intermediário de maturidade em inteligência artificial.

Quais áreas são menos maduras no uso da IA e quais são as mais maduras?

As áreas menos maduras são Comercial/Vendas (47,4 pontos) e Revenue Management (43,9 pontos). As mais maduras são Recursos Humanos (61,0 pontos) e Educação Corporativa (61,3 pontos).

Quais ferramentas de IA são mais utilizadas pelos profissionais brasileiros?

84% dos profissionais utilizam principalmente Copilot, Google Gemini e ChatGPT, enquanto ferramentas de automação e integração como Zapier e Power Automate são pouco usadas.

Qual é o score médio de maturidade em IA das empresas brasileiras?

O score médio geral de maturidade em IA das empresas brasileiras é de 55,6 em 100 pontos, indicando uma fase de transição entre o uso esporádico e a integração estratégica.