A energia nuclear vive hoje um momento raro. Depois de décadas de ceticismo e até de franca oposição, ela ressurge com um apoio que atravessa linhas políticas, especialmente nos Estados Unidos. O motivo? O apetite voraz das empresas de tecnologia por energia, que se veem obrigadas a construir data centers gigantescos. Esse novo fôlego injetou dinheiro e atenção na indústria atomicamente, o que, ironicamente, nos obriga a revisitar um problema antigo e mal resolvido: o lixo nuclear.
Só nos EUA, os reatores produzem anualmente cerca de 2 mil toneladas métricas de resíduos de alto nível. E adivinhe? Não há onde guardá-los permanentemente. Mais de sete décadas após a inauguração da primeira instalação nuclear permanente no país, a solução de longo prazo para esses dejetos continua em aberto.
Atualmente, o combustível usado é armazenado, em grande parte, nos próprios locais onde os reatores operam ou foram desativados. Piscinas e barris feitos de aço e concreto abrigam esse material. Embora a maioria dos especialistas concorde que esses métodos são seguros a curto e médio prazo, eles não foram pensados para serem definitivos.
A promessa do sepultamento geológico profundo
A estratégia principal mundo afora para o armazenamento de longo prazo desse lixo radioativo de alto nível é o sepultamento em repositórios geológicos profundos. A ideia é simples e, ao mesmo tempo, complexa: perfurar um buraco a centenas de metros abaixo da superfície, depositar o material radioativo e selá-lo com concreto. Esses túneis, escavados em formações rochosas estáveis, são projetados para serem a casa final e segura do lixo nuclear.
Embora a teoria seja promissora, ainda não há nenhum repositório geológico para combustível usado totalmente operacional. No entanto, alguns países já estão bem avançados. A Finlândia, por exemplo, é a nação mais adiantada nessa corrida. Desde 2026, o país está testando sua instalação, e as aprovações finais são esperadas em breve, com operações podendo começar ainda este ano. Outros não ficam muito atrás.
“O processo de planejamento, construção e comissionamento de uma solução permanente para o lixo nuclear é longo. A Finlândia começou a planejar nos anos 1980 e selecionou seu local no início dos anos 2000, e está quase pronta para começar a aceitar o lixo. Para os países que não têm uma solução de armazenamento permanente resolvida, o melhor momento para começar foi décadas atrás. Mas o segundo melhor momento é agora.”
França e a complexidade do reprocessamento
A França, por sua vez, abriga mais de 50 reatores nucleares, e sua rede elétrica obtém a maior parte de sua energia da fonte nuclear. O país também possui o programa mais consolidado do mundo para o reprocessamento de combustível usado. Esse processo separa plutônio e urânio para criar um tipo de combustível conhecido como MOX (óxido misto). Contudo, o reprocessamento não é um ciclo de reciclagem perfeito; os resíduos que sobram ainda precisam de um destino. Atualmente, a França armazena o lixo em sua planta de reprocessamento em La Hague, mas planeja construir seu próprio repositório. As aprovações iniciais podem vir ainda nesta década, com operações-piloto a partir de 2035.
O Calcanhar de Aquiles americano: Yucca Mountain
Tecnicamente, os Estados Unidos também têm um destino para seu combustível usado: Yucca Mountain, em Nevada. O local, uma área federal, foi designado pelo Congresso em 1987. No entanto, o progresso parou completamente devido à oposição política. Em 2011, o governo federal suspendeu o financiamento para o local, e há cerca de uma década não há nenhuma atividade digna de nota por lá. Enquanto isso, o lixo continua a se acumular.
A indústria nuclear, impulsionada por gigantes da tecnologia como Microsoft, Google e Amazon, está entrando em uma nova fase global. A China possui o programa de energia nuclear de crescimento mais rápido do mundo, e países como Bangladesh e Turquia estão construindo seus primeiros reatores. Até mesmo o estabelecido programa dos EUA está crescendo: o interesse e a aprovação para a energia nuclear dispararam, e a Big Tech está investindo pesado para atender à crescente demanda por eletricidade.
As companhias energéticas estão propondo (e começando a receber aprovação regulatória para) reatores de próxima geração, que empregam diferentes refrigerantes, combustíveis e designs. Inclusive, um dos grandes atrativos para os executivos de tecnologia é que as novas plantas podem ser menores, moduláveis e mais seguras.
A urgência por uma solução colaborativa
Diante de todo esse novo interesse e da iminente chegada de novos tipos de lixo nuclear, é hora de as empresas nucleares, juntamente com seus poderosos clientes, pressionarem por progresso na construção de instalações de armazenamento geológico. Como o país mais rico do planeta e lar de grande parte da atividade em reatores de próxima geração, os EUA deveriam mirar em se juntar aos líderes em vez de continuar a ficar para trás.
Direcionar mesmo uma pequena fração do recente aumento de financiamento e atenção para o avanço na gestão de resíduos poderia fazer uma diferença significativa. Alguns especialistas estão pedindo uma nova organização nos EUA para gerenciar o lixo nuclear, em vez de deixar a cargo do Departamento de Energia. Essa organização espelharia programas bem-sucedidos na Finlândia, Canadá e França.
É uma questão de responsabilidade. As empresas que colhem os frutos da energia nuclear precisam assumir a carga de seus subprodutos. A inação não só perpetua um problema ambiental, mas também pode frear o avanço da própria indústria nuclear, levantando preocupações sobre sua sustentabilidade a longo prazo.