A ascensão vertiginosa da Inteligência Artificial (IA) é inegável, e seu impacto no mercado de trabalho já causa calafrios em muita gente. Quase um terço dos estudantes universitários da Grã-Bretanha acredita que a IA vai varrer empregos tão rapidamente que o resultado pode ser nada menos que uma revolta social. Sim, você leu certo: distúrbios civis, motins e um cenário de caos provocado pelas máquinas.
Essa é a constatação de uma pesquisa recente do King’s College London (KCL), mergulhando nas atitudes da população em relação à inteligência artificial. O dado é particularmente inquietante porque vem de um grupo que é, ironicamente, um dos maiores usuários da tecnologia.
A tensão entre uso e medo da IA
Os futuros profissionais do Reino Unido estão na linha de frente da adoção da IA. O levantamento do KCL revelou que 77% dos estudantes britânicos usam IA pelo menos algumas vezes ao mês, um número bem acima dos 46% entre a população trabalhadora em geral. Mais ainda, 27% deles recorrem à inteligência artificial diariamente ou quase todos os dias.
Essa familiaridade, no entanto, não aplaca o medo. Pelo contrário. A mesma pesquisa aponta que quase metade do público em geral (49%) preferiria simplesmente evitar a IA. É uma dicotomia curiosa: enquanto muitos se beneficiam da conveniência e eficiência que a tecnologia oferece — seja para tarefas acadêmicas, programação, ou mesmo lazer —, um receio profundo paira sobre o futuro que ela está desenhando para a sociedade.
“Há uma clara divisão entre a utilidade percebida da IA e as preocupações de longo prazo sobre seu impacto em empregos e na estrutura social. Os jovens, em particular, que cresceram com a tecnologia, parecem ter uma visão mais sombria sobre suas consequências extremas, possivelmente por estarem mais cientes de sua capacidade de deslocamento em certas áreas”, comenta um analista do mercado britânico, que preferiu não ser identificado, ao jornal The Guardian.
A preocupação não é isolada aos estudantes. Ela reflete uma ansiedade crescente em vários setores. Países com economias mais desenvolvidas e onde a automação está mais avançada sentem esse dilema de forma mais aguda. No Brasil, embora a automação ainda não tenha atingido o mesmo patamar, já vemos discussões acaloradas sobre a robotização da indústria e o futuro do trabalho em serviços e áreas administrativas. A diferença é que, aqui, a informalidade e a desigualdade socioeconômica podem amplificar qualquer impacto negativo.
O que o Brasil pode aprender com esse temor britânico?
O temor dos estudantes britânicos não pode ser ignorado. Ele sinaliza uma lacuna importante entre o avanço tecnológico e a preparação social para suas consequências. A automação, seja por robôs físicos ou algoritmos de IA, tende a substituir tarefas repetitivas e, em muitos casos, empregos de baixo e médio valor agregado.
Para o Brasil, onde a educação e a requalificação profissional são desafios gigantes, a projeção de um terço dos universitários britânicos soa como um alerta estridente. Nossa força de trabalho, muitas vezes, não tem acesso a programas de capacitação adequados para as novas demandas que a IA já está criando. Pessoas com menor escolaridade ou que dependem de trabalhos manuais podem ser as mais afetadas, criando um cenário propício para o aumento das tensões sociais.
A percepção de que a IA pode levar a uma revolução civil é, claro, uma visão extrema. No entanto, o histórico de revoluções industriais mostra que grandes transformações tecnológicas sempre vêm acompanhadas de rearranjos sociais significativos, por vezes dolorosos. O desafio é mitigar esses impactos. Uma das saídas reside na requalificação em massa da população, focando em habilidades complementares à IA, como pensamento crítico, criatividade, inteligência emocional e resolução de problemas complexos – justamente as áreas onde a IA ainda demonstra suas maiores limitações.
Empresas como a OpenAI, criadora do ChatGPT, costumam defender que a IA vai criar mais empregos do que destruir, mudando suas naturezas. O ponto é que essa criação pode não ser imediata nem automaticamente acessível a quem perdeu seu posto de trabalho. É um hiato temporal e de habilidades que pode ser perigoso.
Os formuladores de políticas públicas, empresas e instituições de ensino precisam se unir para desenvolver estratégias proativas. Isso inclui não apenas investir em educação técnica e profissionalizante alinhada às novas tecnologias, mas também discutir amplamente conceitos como renda básica universal, sistemas de proteção social mais robustos e novas formas de organização do trabalho, que possam absorver os impactos de uma força de trabalho transformada pela IA.
O medo de distúrbios civis é um sintoma da insegurança gerada pela IA, e não deve ser simplesmente descartado como exagero. Ele reflete uma preocupação legítima sobre como a sociedade vai se adaptar a uma das maiores revoluções tecnológicas da história. A pergunta que fica é: estamos realmente prontos para os desafios sociais que a IA pode trazer?