Representação artística de uma cápsula espacial retornando à Terra, simbolizando a entrega de produtos fabricados em órbita.

Fármacos no espaço: o plano milionário que quer vender droga

Por Anselmo Bispo • 5 min de leitura

A fabricação de produtos no espaço, antes uma promessa distante, ganha contornos de realidade com um acordo inusitado: a startup Varda Space Industries, focada em manufatura orbital, uniu forças com a farmacêutica United Therapeutics. O objetivo? Produzir medicamentos em órbita, um movimento que pode redefinir o desenvolvimento de fármacos e inaugurar uma nova era para a indústria espacial comercial.

Enquanto a Estação Espacial Internacional (ISS) já hospeda experimentos governamentais de fabricação em microgravidade, a Varda quer ir além, buscando viabilidade comercial. Baseada em El Segundo, Califórnia, a empresa aposta que pode oferecer um método prático e repetível para criar novas moléculas longe da Terra. É um risco, mas com potencial de retorno bilionário.

Michael Reilly, diretor de estratégia da Varda, resumiu a ambição: "Este é o primeiro caminho comercial para produtos feitos no espaço".

A ciência por trás da iniciativa é intrigante: na ausência de gravidade, misturas químicas se comportam de maneiras radicalmente diferentes. A água, por exemplo, forma esferas oscilantes, onde a tensão superficial domina. A Varda pretende aplicar essa regra aos compostos farmacêuticos.

O plano é lançar versões de medicamentos da United Therapeutics para o espaço, permitindo que cristalizem. Em microgravidade, espera-se que esses cristais formem arranjos atômicos impossíveis de obter na Terra. O resultado? Novas versões de fármacos com propriedades aprimoradas, como maior estabilidade ou eficácia.

À frente da United Therapeutics está a CEO Martine Rothblatt, uma figura que já atuou nos primórdios dos satélites de telecomunicações. Ela construiu um império da saúde com medicamentos para hipertensão arterial pulmonar (doença que afeta sua filha) e uma subsidiária focada em porcos geneticamente modificados para transplantes. Para Rothblatt, o espaço pode revelar versões "ainda mais incríveis" de seus remédios.

A busca por novas patentes e formulações

A indústria farmacêutica vive em uma corrida constante para manter a lucratividade de seus produtos. Reformular medicamentos existentes ou criar versões aprimoradas é uma estratégia chave. A United Therapeutics, por exemplo, já transformou pílulas em versões inaladas. Essas manobras não só afastam a concorrência, mas também podem estender patentes por décadas, garantindo lucros contínuos.

Diante disso, a Varda se posiciona. Em vez de nebulizadores ou adesivos, a startup propõe viagens ao espaço como o novo caminho para a reformulação de drogas. Fundada em 2021 por Delian Asparouhov, sócio do Founders Fund de Peter Thiel, e Will Bruey, ex-engenheiro de aviônicos da SpaceX de Elon Musk e atual CEO da Varda, a empresa aposta na viabilidade econômica da manufatura espacial.

O grande impulsionador desse modelo de negócios é a redução dos custos e a frequência dos lançamentos de foguetes. Para chegar ao espaço, a Varda compra assentos em foguetes da SpaceX, de Elon Musk, que lança um Falcon 9 reutilizável a cada dois ou três dias. Esses foguetes transportam cargas do tamanho de um caminhão de mudança, liberando satélites ou instrumentos em órbita.

Desde 2023, a Varda tem enviado pequenos satélites acoplados a cápsulas que contêm equipamento para experimentos. O crucial é que essas cápsulas podem se soltar e retornar à Terra. A NASA tem sido fundamental, financiando estudos e missões que comprovaram a viabilidade de alguns processos de fabricação em microgravidade. No entanto, a transição para o comercial sempre foi o maior desafio.

Apesar do entusiasmo, é preciso cautela. Ainda não há um único produto fabricado no espaço, trazido de volta e comercializado. Empresas como a Made in Space, adquirida pela Redwire Space em 2020, tentaram, mas ainda não concretizaram a promessa. A Varda, no entanto, parece ser quem chega mais perto de transformar a visão em realidade, com um cliente real e um produto tangível em vista.

Para o Brasil, as implicações são indiretas, mas relevantes. Com a fabricação espacial consolidada, o acesso a medicamentos inovadores pode se tornar mais rápido globalmente. Além disso, a tecnologia por trás — a capacidade de lançar, processar e retornar cargas do espaço — pode abrir portas para inovações em diversas indústrias, da eletrônica a novos materiais. O Brasil, com seu programa espacial e interesse em tecnologia, certamente acompanhará esses avanços, buscando oportunidades para se integrar a essa nova fronteira industrial.

Os desafios são muitos: o custo inicial ainda é alto, a validação de medicamentos produzidos em condições tão singulares exige rigor e a logística de retorno à Terra precisa ser impecável. No entanto, para a indústria farmacêutica, onde um único medicamento de sucesso pode gerar bilhões, o investimento pode valer a pena. Estaríamos à beira de uma nova corrida espacial, onde o prêmio não é a Lua ou Marte, mas sim a próxima pílula capaz de salvar vidas?

Tags: fabricação espacial medicamentos Varda Space Industries United Therapeutics microgravidade

Perguntas Frequentes

Qual é a principal aposta da Varda Space Industries?

A Varda aposta que a microgravidade no espaço pode ser usada para cristalizar moléculas de medicamentos de formas impossíveis na Terra, levando a novas versões com propriedades aprimoradas.

Quem é a United Therapeutics e por que ela está interessada nisso?

A United Therapeutics é uma farmacêutica liderada por Martine Rothblatt, que busca inovações para seus medicamentos. Ela vê na manufatura espacial uma chance de descobrir versões 'ainda mais incríveis' de seus fármacos, estendendo patentes e melhorando produtos.

Por que a manufatura espacial é viável para medicamentos, mas não para outros produtos?

Embora o custo de lançamento ao espaço seja alto (cerca de US$ 7.000 por quilograma), medicamentos de grande sucesso podem valer mais de US$ 100 milhões por quilograma, tornando a fabricação em órbita economicamente vantajosa, o que não acontece com a maioria das outras indústrias.

Algum produto já foi fabricado no espaço e vendido na Terra?

Até agora, nenhum produto fabricado integralmente no espaço, trazido de volta e comercializado na Terra. O acordo da Varda com a United Therapeutics representa o passo mais significativo nessa direção comercial.