A bolha que envolvia o uso da inteligência artificial em Hollywood parece ter estourado. Membros do sindicato SAG-AFTRA acabam de aprovar um novo contrato de quatro anos com os grandes estúdios, estabelecendo regras claras para a utilização de atores criados por IA. O acordo foi ratificado com uma maioria esmagadora de 91,4% dos votos favoráveis, finalizando meses de discussões acaloradas sobre temas como remuneração, benefícios previdenciários e, claro, a tecnologia.
Este resultado marca mais um capítulo na disputa entre os profissionais da indústria do entretenimento e as empresas que buscam integrar ferramentas de inteligência artificial em seus processos de produção. Desde a greve histórica de atores e roteiristas em 2023, a presença da tecnologia se tornou uma das principais preocupações dos sindicatos do setor, moldando o diálogo e as negociações.

O uso de inteligência artificial se tornou um dos principais temas das negociações entre sindicatos e estúdios da indústria audiovisual – Imagem: Grusho Anna / Shutterstock
O que muda para os "performers sintéticos"?
Uma das novidades mais significativas do contrato é a introdução de regras específicas para os chamados “performers sintéticos”. Estes são personagens gerados por inteligência artificial, que podem ser empregados em filmes e séries, mas agora sob condições bem mais restritas. A partir do novo acordo, estúdios só poderão usar esses personagens quando eles oferecerem um “valor adicional significativo” em comparação com um ator humano ou uma versão digital do mesmo.
A direção do SAG-AFTRA, que liderou as negociações, afirmou que a medida visa impedir que a tecnologia seja usada simplesmente como uma forma de substituir trabalhadores. Sean Astin, presidente do sindicato, destacou a importância do acordo, dizendo que ele "coloca a entidade na vanguarda das discussões sobre IA no mercado de trabalho".
“Coloca a entidade na vanguarda das discussões sobre IA no mercado de trabalho.”
Já Duncan Crabtree-Ireland, diretor executivo do SAG-AFTRA, declarou que as novas cláusulas buscam garantir que os personagens sintéticos "permaneçam como exceção na indústria, e não se tornem uma prática comum".
Regras ampliam proteções e dão mais voz aos atores
Este novo contrato é uma extensão das proteções que o sindicato já havia conquistado durante a paralisação de 2023. Naquela época, os atores garantiram o direito de consentir com o uso de réplicas digitais de suas imagens, além de assegurar compensação financeira quando essas versões fossem empregadas em produções. O novo acordo vem para consolidar e expandir essas salvaguardas.

A greve de atores de 2023 colocou o uso de inteligência artificial entre os principais temas das negociações entre sindicatos e estúdios de Hollywood – Imagem: Leonard Zhukovsky/Shutterstock
Segundo a liderança da entidade, o objetivo é dar aos profissionais mais influência sobre como a tecnologia será empregada nos próximos anos, garantindo que o avanço da IA não se traduza em precarização ou substituição indiscriminada de talentos humanos. O voto positivo do SAG-AFTRA sinaliza um caminho onde a inovação pode coexistir com a proteção dos direitos dos trabalhadores do cinema.