A indústria de monitores para jogos parece ter pego um atalho para a velocidade máxima. Há pouco menos de dois anos, protótipos de monitores com taxas de atualização de 1.000 Hz eram apenas curiosidades de laboratório, gerando a pergunta inevitável: quem diabos precisa de uma tela tão rápida? Agora, esses exercícios de engenharia estão deixando as pranchetas para se tornarem produtos reais, e a questão persiste: será que realmente há mercado para telas que renovam a imagem a cada milissegundo?
A mais recente estrela de alta velocidade é o LG UltraGear 25G590B, um monitor de 24.5 polegadas que a empresa sul-coreana anunciou recentemente como "o primeiro monitor gamer Full HD nativo de 1000Hz do mundo". Com lançamento prometido para mercados selecionados no segundo semestre, essa promessa de "Full HD" é crucial. Afinal, 1080p ainda é a resolução mais comum entre os gamers, como mostram as pesquisas regulares de hardware da Steam.
Isso representa um salto notável em relação a modelos como o Acer Predator XB273U F6, o Samsung Odyssey G6 ou o Philips EVNIA 27M2N5500XD. Esses concorrentes, embora também alcancem 1.000 Hz, geralmente precisam rebaixar a imagem para uma resolução mais desfocada de 720p para atingir essa marca. Em 1440p, eles se contentam com uns ainda impressionantes, mas não tão extremos, 500 Hz. A LG faz questão de frisar que seu monitor atinge essas proezas de resolução e taxa de atualização de forma nativa, sem truques de "modo duplo" ou reinicializações.
Quem realmente precisa de 1.000 Hz?
A obsessão por números maiores na tecnologia é uma constante, e o mundo gamer não foge à regra. De 60 Hz para 144 Hz, o salto foi perceptível para muitos. De 144 Hz para 240 Hz ou até 360 Hz, os benefícios começaram a ficar mais sutis, notados principalmente por jogadores profissionais de e-sports ou entusiastas com sentidos apuradíssimos e reflexos de felino. Agora, com 1.000 Hz batendo à porta, a barreira do "perceptível ao olho humano" parece ter sido pulverizada.
"Estamos entrando em um território onde a resposta humana é o verdadeiro gargalo, não a tecnologia do display. Para a maioria dos jogadores, a diferença entre 360 Hz e 1.000 Hz será imperceptível fora de um ambiente de teste rigoroso."
É o que diz um especialista em hardware de jogos, destacando o dilema. Para títulos competitivos de tiro em primeira pessoa (FPS), onde cada milissegundo conta, a latência entre o clique do mouse e a atualização da tela é vital. Mas mesmo nesses cenários, a questão que paira é se a diferença de latência entre, digamos, 500 Hz e 1.000 Hz é realmente a que define uma vitória ou derrota. Ou se outros fatores, como a latência da rede e do próprio hardware do computador, não se tornam os verdadeiros limitadores.
Além da percepção humana, há o custo. Monitores topo de linha já são investimentos consideráveis, e adicionar uma tecnologia de ponta como essa significa preços ainda mais salgados. Para justificar o valor, o consumidor precisa de mais do que apenas um número alto na caixa. Ele precisa sentir a diferença. E para isso, a máquina por trás do monitor também precisa ser um monstro de desempenho, capaz de gerar milhares de quadros por segundo consistentemente para aproveitar a taxa de atualização máxima.
Imagine, por exemplo, o desafio de manter 1.000 quadros por segundo em jogos modernos com gráficos complexos. Isso exige não apenas uma placa de vídeo de última geração, mas também um processador robusto e memória RAM de alta velocidade. Para a maioria dos jogadores, o investimento necessário para bancar todo esse ecossistema será proibitivo. Isso restringe o público-alvo a um nicho muito específico: jogadores profissionais de e-sports patrocinados, entusiastas com orçamentos ilimitados e talvez alguns desenvolvedores. O cenário no Brasil, com impostos e o câmbio desfavorável, torna essa realidade ainda mais distante para o consumidor comum.
No entanto, a inovação não para. Esses "excessos" tecnológicos, muitas vezes, servem como bancadas de teste para futuras gerações de hardware. O que hoje é novidade e caríssimo, em alguns anos pode se tornar padrão em segmentos mais acessíveis. A corrida por monitores de altíssima taxa de atualização empurra os limites da engenharia, mas resta saber se o mercado acompanhará essa velocidade estonteante.