A saga judicial entre Elon Musk e Sam Altman, CEOs de duas das empresas mais faladas no universo da Inteligência Artificial, chega ao seu ápice. O que começou como uma promessa de IA para o bem da humanidade, segundo Musk, desaguou em um tribunal onde acusações de mentiras, busca por poder e ambição bilionária foram as estrelas do espetáculo. No que foi a semana final do julgamento intensamente acompanhado, advogados trocaram farpas ferozes sobre a credibilidade tanto de Musk quanto de Altman.
Altman, o homem à frente da OpenAI, enfrentou uma artilharia pesada sobre seu alegado histórico de mentiras e transações que favoreciam seus próprios empreendimentos, os quais mantêm relações comerciais com a própria OpenAI. Mas ele não se calou. Em vez disso, pintou Musk como um ávido por poder, alguém que desejava controlar o desenvolvimento da Inteligência Artificial Geral (IAG) — aquela forma superpoderosa de IA capaz de rivalizar com humanos na maioria das tarefas cognitivas.
Para comprovar seu compromisso com a segurança da IA, a OpenAI até exibiu um troféu peculiar: uma estátua dourada de um traseiro de burro. O objeto foi um presente a um funcionário que foi chamado de “idiota” por Musk por se opor aos planos do bilionário de acelerar a corrida pela IAG. Um símbolo, no mínimo, inusitado em um tribunal.
A Guerra de Credibilidade por Trás da IA
Os advogados de ambos os lados apresentaram seus argumentos finais, projetando fotos desfavoráveis de Musk e Altman, no estilo “foto de criminoso”, lado a lado em uma tela gigante. Steven Molo, advogado de Musk, argumentou que Altman e o presidente da OpenAI, Greg Brockman, quebraram a promessa de usar o dinheiro doado por Musk para manter a OpenAI como uma organização sem fins lucrativos, dedicada a desenvolver IA para o benefício da humanidade. Em vez disso, eles teriam criado uma subsidiária com fins lucratos que os tornou extraordinariamente ricos.
“Imagine que você está em uma caminhada e se depara com uma daquelas pontes de madeira que você vê em uma trilha, e ela está sobre um desfiladeiro. Uma mulher parada na entrada da ponte...”
Foi assim, com uma analogia que remetia à fragilidade da confiança, que Molo tentou abalar ainda mais a imagem de Altman durante sua declaração final, segundo o conteúdo original do qual extraímos os relatos. Ele questionou a integridade do CEO da OpenAI na gestão do projeto.
Sarah Eddy, advogada da OpenAI, rebateu. Ela afirmou que Altman e Brockman nunca prometeram manter a OpenAI como uma entidade sem fins lucrativos. E mesmo com as reestruturações que aconteceram, ela garante que a OpenAI continua sendo uma organização dedicada ao desenvolvimento seguro da IA. Eddy ainda alegou que Musk abriu o processo tarde demais, e que sua verdadeira motivação seria sabotar um concorrente — afinal, ele lançou sua própria empresa de IA, a xAI, em 2023.
Musk pede ao tribunal que desfaça a reestruturação de 2025 que transformou a subsidiária com fins lucrativos da OpenAI em uma corporação de benefício público, além de remover Altman e Brockman de seus cargos. Ele também busca indenizações que podem chegar a 134 bilhões de dólares da OpenAI e da Microsoft, valores que seriam destinados à parte sem fins lucrativos da OpenAI.
O júri começa a deliberar esta semana e deve entregar um veredito consultivo em breve. É importante lembrar que esse veredito não é vinculante, ou seja, a decisão final está nas mãos do juiz. Se o juiz decidir a favor de Musk, isso poderia virar de cabeça para baixo a corrida da OpenAI rumo a uma oferta pública inicial (IPO) com avaliação próxima de 1 trilhão de dólares. Enquanto isso, a xAI de Musk, parte da SpaceX, deve ter seu próprio IPO já em junho, com um valor estimado de 1,75 trilhão de dólares. Os números são estratosféricos e mostram o que está em jogo nessa briga.
Sam Altman: O Menteiro? Elon Musk: O Ambicioso?
Na primeira semana do julgamento, Musk declarou que seu objetivo com a ação era “salvar a missão da OpenAI de construir IA de forma segura para o benefício da humanidade”. Contudo, nesta última semana, Altman apresentou uma versão bem diferente: ele negou que Musk seja um paladino da segurança da IA e o pintou como um “buscador de poder que queria controlar a OpenAI”.
Altman relatou ao júri que, em 2017, quando Musk e outros cofundadores discutiam a criação de um braço com fins lucrativos, questionaram Musk sobre o que aconteceria com seu controle sobre tal entidade caso ele morresse. A resposta de Musk, segundo Altman:
“Talvez o controle da OpenAI devesse passar para meus filhos.”
O advogado de Musk revidou, interrogando Altman sobre seu suposto histórico de mentiras. Ele destacou que ex-executivos da OpenAI, como Ilya Sutskever e Mira Murati, e ex-membros do conselho, Helen Toner e Tasha McCauley, todos testemunharam que Altman mentiu para eles. Em 2023, Altman chegou a ser brevemente demitido do cargo de CEO por conta dessa conduta. Molo também pressionou Altman sobre seus investimentos pessoais em startups que fazem negócios com a OpenAI. Altman testemunhou que ele tentou direcionar a OpenAI a comprar energia da Helion Energy, uma empresa de energia nuclear da qual ele possui um terço.
Na semana passada, inclusive, o comitê de supervisão da Câmara dos EUA abriu uma investigação sobre os potenciais conflitos de interesse de Altman. Procuradores-gerais de mais de meia dúzia de estados pediram à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) que revista essas situações. Essa é uma camada adicional de complexidade que lança uma sombra sobre a credibilidade de Altman, justamente quando a OpenAI se prepara para passos gigantescos no mercado.
A batalha legal não é apenas sobre dinheiro ou controle da OpenAI; é sobre a narrativa de quem realmente está agindo em benefício da tecnologia e quem está movido por interesses pessoais. O resultado deste julgamento terá repercussões duradouras para o futuro da regulamentação da IA e para as carreiras de dois dos maiores nomes da tecnologia.