A explosão da Inteligência Artificial (IA) tem impactado todas as indústrias, e o setor público não é exceção. Organizações governamentais em todo o mundo, incluindo o Brasil, enfrentam uma pressão crescente para acelerar a adoção dessa tecnologia transformadora. Contudo, instituições públicas lidam com restrições únicas relacionadas à segurança, governança e operações que as diferenciam do setor privado.
Nesse cenário complexo, os Modelos de Linguagem Pequenos (SLMs – Small Language Models) surgem como uma solução promissora. Eles oferecem um caminho viável para operacionalizar a IA de forma eficaz e segura em ambientes governamentais, superando as barreiras que os grandes modelos, os LLMs (Large Language Models), dificilmente transporiam.

Desafios Únicos da IA no Setor Público
Uma pesquisa da Capgemini revelou que 79% dos executivos do setor público globalmente estão apreensivos com a segurança de dados da IA. Esta preocupação é totalmente compreensível, dada a alta sensibilidade dos dados governamentais e as rigourosas obrigações legais em torno de seu uso, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no Brasil.
Han Xiao, vice-presidente de IA da Elastic, ressalta a complexidade dessa realidade.
"Agências governamentais precisam ser extremamente restritivas sobre o tipo de dados que enviam para a rede. Isso impõe muitas barreiras sobre como elas pensam e gerenciam seus dados."
A necessidade fundamental de controle sobre informações sensíveis é um dos muitos fatores que complicam a implantação da IA no setor público.
Ao contrário do setor privado, que frequentemente assume conectividade contínua à nuvem, infraestrutura centralizada e menor restrição ao movimento de dados, o governo opera em um paradigma diferente. Para muitas instituições estatais, aceitar essas condições pode ser perigoso ou até impossível, especialmente quando se trata de dados de cidadãos ou informações estratégicas.
Restrições Operacionais e a Realidade Brasileira
As entidades privadas que expandem o uso da IA geralmente partem de premissas operacionais que não se aplicam ao setor público. Isso inclui a aceitação de uma certa incompletude na transparência do modelo e permissividade no movimento de um grande volume de informações. No Brasil, por exemplo, a infraestrutura digital ainda é um desafio em muitas regiões.
Agências governamentais brasileiras devem garantir que seus dados permaneçam sob controle local e que as informações possam ser facilmente auditadas e verificadas. Além disso, é crucial que as interrupções operacionais sejam mantidas no mínimo absoluto. É comum que esses órgãos operem em ambientes onde a conectividade à internet é limitada, pouco confiável ou inexistente, especialmente em áreas remotas ou em cenários de emergência.
Xiao enfatiza:
"Muitos subestimam o desafio operacional da IA. O setor público precisa que a IA funcione de forma confiável com todos os tipos de dados e que possa crescer sem quebrar. A continuidade das operações é frequentemente subestimada."
Uma pesquisa da Elastic com líderes do setor público revelou que 65% deles têm dificuldade em usar dados continuamente, em tempo real e em escala, um problema que se reflete na realidade brasileira.
As restrições de infraestrutura amplificam o problema. Organizações governamentais, inclusive aqui no Brasil, podem ter dificuldades em obter as Unidades de Processamento Gráfico (GPUs) necessárias para treinar e operar modelos complexos de IA. Ao contrário do setor privado, que investe pesadamente em hardware de ponta, o governo não está acostumado a gerenciar essa infraestrutura, tornando o acesso a GPUs um gargalo significativo para muitas entidades públicas.
SLMs: A Solução para um Cenário Complexo
As diversas e inegociáveis exigências do setor público tornam os Modelos de Linguagem Grandes (LLMs), como o ChatGPT, difíceis de serem implementados em grande escala. Embora sejam poderosos, eles demandam uma infraestrutura robusta, conectividade constante e o envio de dados para servidores externos, o que colide diretamente com as normativas de segurança e privacidade do governo.
É aqui que os SLMs brilham. Eles podem ser hospedados localmente, oferecendo muito mais segurança e controle sobre os dados. Os SLMs são modelos de IA especializados, que normalmente utilizam bilhões de parâmetros, em vez das centenas de bilhões dos maiores LLMs. Isso os torna muito menos exigentes computacionalmente, facilitando sua implementação em infraestruturas existentes e menos potentes.
O setor público não precisa, e muitas vezes não deve, construir modelos cada vez maiores em locais centralizados e externos. Um estudo empírico demonstrou que os SLMs podem ter um desempenho tão bom, ou até melhor, do que os LLMs em tarefas específicas. Eles permitem que informações sensíveis sejam usadas de forma eficaz e eficiente, evitando a complexidade operacional de manter grandes modelos e suas dependências.
Xiao exemplifica a diferença:
"É fácil usar o ChatGPT para revisar um texto. É muito difícil rodar seus próprios grandes modelos de linguagem com a mesma suavidade em um ambiente sem acesso à rede."
Os SLMs são projetados para as necessidades específicas de um departamento ou agência, com foco em tarefas bem definidas de IA.
Com os SLMs, os dados são armazenados de forma segura, fora do modelo principal, e são acessados apenas quando consultados. Prompts cuidadosamente elaborados garantem que apenas as informações mais relevantes sejam recuperadas, protegendo a privacidade e a segurança. Isso é crucial para o setor público, que lida com uma vasta quantidade de informações confidenciais.
Impacto dos SLMs no Setor Público Brasileiro
A aplicação de SLMs no Brasil pode revolucionar vários setores governamentais. Na saúde, por exemplo, pequenos modelos podem ser treinados para analisar prontuários médicos e identificar padrões para diagnósticos precoces, tudo isso mantendo os dados sensíveis dos pacientes dentro dos servidores da instituição.
Na segurança pública, SLMs podem processar grandes volumes de dados de ocorrências, auxiliando na identificação de tendências criminais e na alocação de recursos, sem comprometer a privacidade dos cidadãos. Na educação, podem personalizar o aprendizado para alunos de escolas públicas, analisando dados de desempenho e adaptando conteúdos, garantindo a soberania dos dados educacionais.
A flexibilidade dos SLMs também permite o desenvolvimento de soluções mais ágeis e customizadas para as demandas específicas de cada órgão. Isso é particularmente vantajoso em um país com a diversidade e a complexidade do Brasil, onde as necessidades de cada estado e município podem variar drasticamente. A programação e automação desses modelos se tornam mais acessíveis e controláveis para equipes de TI e desenvolvedores internos.
A curva de aprendizado e o custo de implantação de um SLM são significativamente menores do que os de um LLM de grande porte. Isso democratiza o acesso à inteligência artificial para órgãos públicos com orçamentos mais restritos, permitindo que a inovação tecnológica avance sem sobrecarregar as finanças públicas. A capacidade de operar offline ou com conectividade limitada também é um diferencial chave para o Brasil.
Como temos acompanhado aqui no Brasil Vibe Coding, a vibe coding no setor público ganha força com a possibilidade de desenvolver soluções de IA internamente, utilizando frameworks e tecnologias que permitem a criação e o treinamento de SLMs localmente, garantindo a aderência às políticas de segurança e soberania de dados nacionais.
Conclusão e Perspectivas Futuras
Os Modelos de Linguagem Pequenos (SLMs) representam uma virada de jogo para a implementação da Inteligência Artificial no setor público. Ao abordar as preocupações com segurança, governança e infraestrutura, que são cruciais para órgãos governamentais, eles abrem as portas para uma inovação significativa e responsável.
A capacidade de hospedar e controlar esses modelos localmente, combinada com sua menor demanda computacional, os torna ideais para um ambiente onde a proteção de dados e a continuidade operacional são primordiais. Para o Brasil, os SLMs oferecem a oportunidade de construir uma infraestrutura de IA robusta e adaptada às suas próprias realidades e desafios únicos.
Olhando para o futuro, a tendência é que os SLMs se tornem cada vez mais sofisticados e especializados. Isso permitirá que o setor público extraia o máximo valor da IA, otimizando serviços, aprimorando a tomada de decisões e, em última análise, servindo melhor aos cidadãos. Continue acompanhando o Brasil Vibe Coding para mais novidades sobre o avanço da tecnologia e da inteligência artificial no país.