Soldado utilizando capacete com óculos de realidade aumentada projetando informações no campo de visão, em cenário militar.

Óculos smart de combate: como IA e RA podem mudar o campo de

Por Pedro W. • 5 min de leitura

A ideia parece saída de um roteiro de ficção científica, mas está se tornando bem real. A Anduril, uma empresa de tecnologia de defesa que tem ganhado destaque rápido, revelou detalhes sobre seus ambiciosos projetos de realidade aumentada para uso militar, desenvolvidos em parceria com a Meta. O objetivo? Criar óculos inteligentes que permitirão a soldados coordenar ataques de drones com meros movimentos dos olhos e comandos de voz.

Quay Barnett, vice-presidente da Anduril e ex-membro do Comando de Operações Especiais do Exército dos EUA, é o cérebro por trás dessa iniciativa. Sua visão é clara: otimizar o “humano como um sistema de armas”. Em suas palavras, o objetivo é que drones e soldados “vejam juntos, compartilhem informações de forma contínua e tomem decisões como um só”. É um aceno claro a um futuro onde a linha entre homem e máquina no campo de batalha é cada vez mais tênue.

A Anduril, de fato, está investindo em dois caminhos paralelos para alcançar essa meta. O primeiro é o Soldier Born Mission Command (SBMC) do Exército dos EUA, um contrato de US$ 159 milhões que a empresa garantiu no ano passado para trabalhar com a Meta no desenvolvimento de óculos de realidade aumentada que se acoplem a capacetes militares existentes. Mas não para por aí. Existe também uma empreitada autofinanciada, batizada de EagleEye, que busca criar um capacete e headset completos com a marca Anduril. Embora o Exército não tenha solicitado especificamente o EagleEye, a Anduril aposta que essa solução será a preferida no futuro.

A promessa de batalha e os desafios tecnológicos

Ambos os sistemas, por enquanto, ainda estão a anos de distância da produção em massa. A expectativa é que o Exército dos EUA só comece a produzir a versão final do SBMC em 2028 – e isso se realmente decidir avançar com o projeto. O caso da Microsoft é um lembrete vívido da complexidade: a gigante da tecnologia já havia recebido um contrato de US$ 22 bilhões para a produção de óculos similares, que acabou cancelado por problemas de viabilidade técnica. Essa é uma barreira alta a superar.

Barnett detalhou à MIT Technology Review como as duas tecnologias se conectam. Dependendo da situação e das necessidades do combate, os óculos projeção de mapas, localização de drones, ou até mesmo o reconhecimento de alvos específicos através de inteligência artificial. A ideia é que o soldado possa interagir com essa interface de forma intuitiva.

A interação verbal, por exemplo, permitiria ordens em linguagem natural, como “evacuar ferido” ou “planejar rota, evitando áreas perigosas”. Para traduzir a fala do soldado em comandos para o sistema, a Anduril está testando modelos de linguagem grandes, incluindo o Gemini do Google, o Llama da Meta e até mesmo o Claude da Anthropic, apesar da relação conturbada desta última com o Pentágono. O coração de tudo isso é o software Lattice da Anduril, que integra dados de diversos equipamentos militares para criar uma visão unificada do campo de batalha. Em março, o Exército dos EUA anunciou um investimento de US$ 20 bilhões para integrar o Lattice em praticamente toda a sua infraestrutura.

“Queremos otimizar o humano como um sistema de armas. A visão é que drones e soldados vejam juntos, compartilhem informações de forma contínua e tomem decisões como um só.”

Quay Barnett, vice-presidente da Anduril

A equipe de Barnett está focada em permitir que o headset execute tarefas complexas e multifacetadas. Um exemplo: um soldado poderia enviar um drone para patrulhar uma área e instruí-lo a retornar após identificar um possível alvo, como uma unidade de artilharia. O sistema então sugeriria cursos de ação, como um ataque aéreo, que ainda precisaria de aprovação da cadeia de comando. A cereja do bolo, se tudo correr conforme o planejado, é que a interação nem precisaria de comandos de voz; apenas a intenção do soldado, via rastreamento ocular, poderia ser suficiente.

A sobrecarga de informações e os riscos inerentes

Mas, como em toda tecnologia disruptiva, há uma série de desafios e preocupações. O principal é o risco de sobrecarga de informações. Soldados já operam em ambientes complexos e estressantes; a adição de um fluxo constante de dados visuais e sonoros pode mais atrapalhar do que ajudar. Se a tecnologia consumir mais largura de banda mental do que for capaz de liberar, ela pode ser rejeitada em campo. Além disso, um sistema de óculos inteligentes encarregado de identificar ameaças e sugerir ataques traz riscos enormes de erros, com consequências potencialmente catastróficas.

A robustez é outro fator crítico. O equipamento precisa resistir a poeira, explosões e condições de comunicação precárias, algo que o ambiente de combate fornece em abundância. A visão de um “ciborgue militar” levanta também questões éticas complexas. A facilidade com que um ataque de drone pode ser orquestrado – apenas com um olhar ou uma palavra – pode desumanizar ainda mais a guerra? A responsabilidade moral de tais decisões ainda recairá sobre o humano, mas a velocidade e a distância que essa tecnologia impõe podem alterar a percepção e o peso dessas escolhas.

No Brasil, o debate sobre o uso de inteligência artificial e realidade aumentada em contextos de segurança e defesa ainda é incipiente, mas a tendência global aponta para uma militarização crescente dessas tecnologias. Enquanto as forças armadas ainda dependem de equipamentos mais tradicionais, a incursão de empresas como a Anduril — focadas em software e IA — indica uma mudança de paradigma. A eficiência prometida por essa integração entre homem e máquina pode ser tentadora, mas a linha entre aprimoramento e dependência excessiva é tênue e deve ser cuidadosamente navegada.

O futuro do combate, com olhos que veem além do limite humano e ouvidos que compreendem as ordens mais silenciosas, está sendo desenhado agora. A questão não é mais se veremos soldados operando com esses óculos, mas quando e em que condições. Resta saber se o equilíbrio entre poder e prudência será mantido.

Tags: realidade aumentada inteligência artificial defesa militar Anduril

Perguntas Frequentes

O que são os óculos smart de combate da Anduril e Meta?

São protótipos de óculos de realidade aumentada desenvolvidos para soldados, permitindo que eles coordenem ataques de drones e recebam informações em tempo real via rastreamento ocular e comandos de voz.

Qual a visão de Quay Barnett para essa tecnologia?

Barnett, da Anduril, busca otimizar o 'humano como um sistema de armas', integrando drones e soldados para compartilhar informações e tomar decisões de forma unificada no campo de batalha.

Quais são os dois projetos da Anduril nessa área?

A Anduril está trabalhando no Soldier Born Mission Command (SBMC) para o Exército dos EUA e, de forma autofinanciada, no EagleEye, um capacete e headset completos que a empresa acredita será a preferência do Exército.

Quais os principais desafios para essa tecnologia?

Os desafios incluem a robustez para condições de combate (poeira, explosões, comunicação limitada), o risco de sobrecarga de informações para os soldados e as questões éticas relacionadas à automação e desumanização da guerra.

Quando essa tecnologia deve ser implementada em larga escala?

A previsão do Exército dos EUA é que a produção em massa do SBMC não ocorra antes de 2028, e isso, se o projeto for adiante, considerando os desafios técnicos e a complexidade.