A Life Biosciences, uma empresa de biotecnologia focada em reverter doenças relacionadas à idade, anunciou no início da semana uma nova etapa em seus estudos. Um voluntário com glaucoma recebeu um tratamento experimental injetado diretamente no olho, com o objetivo de regenerar nervos saudáveis e reverter a perda de visão.
David Sinclair, presidente e cofundador da empresa por trás do ensaio clínico, tem ambições ainda maiores. Se o tratamento puder reverter o glaucoma, talvez abordagens similares possam combater outras doenças do envelhecimento. A esperança é que, quem sabe, o próprio processo de envelhecimento possa ser revertido.
A abordagem central dessa pesquisa é a “reprogramação” celular, que busca restaurar as células a um estado mais jovem. Essa é uma das muitas estratégias exploradas por empresas de biotecnologia, mas, entre elas, a reprogramação é a que parece estar ganhando maior tração e investimento.
A busca pela fonte da juventude biológica
O envelhecimento é um processo complexo, com inúmeras mudanças biológicas que afetam praticamente todos os sistemas do corpo. Em 2013, uma equipe de cientistas publicou um artigo seminal que descrevia nove “marcas do envelhecimento”, categorizando os efeitos que os pesquisadores tentam combater. No entanto, algumas dessas abordagens caíram em desuso ao longo dos anos.
Um exemplo é o desgaste dos telômeros. Telômeros são sequências de DNA nas pontas dos cromossomos, frequentemente comparadas às ponteiras de plástico que impedem que os cadarços desfiem. Conforme as células se dividem, os telômeros encurtam, até que o DNA se torna vulnerável a danos. Houve um tempo em que o encurtamento dos telômeros era um tópico de grande entusiasmo na pesquisa anti-envelhecimento, associado a doenças cardíacas e cerebrais relacionadas à idade.
Em 2015, Liz Parrish, CEO da empresa de biotecnologia BioViva, injetou-se com uma terapia genética experimental na esperança de alongar seus telômeros. A pesquisa continuou, mas o foco da comunidade de longevidade mudou para outra marca do envelhecimento, embora Parrish continue se autodenominando “a pessoa mais geneticamente modificada da Terra”.
A nova obsessão tornou-se a senescência celular. Esse processo ocorre quando as células param de se dividir, mas não morrem, entrando em um estado “zumbi” no qual liberam substâncias químicas que podem causar inflamação prejudicial. Células senescentes acumulam-se gradualmente em quase todos os órgãos estudados, contribuindo para danos relacionados à idade.
Em 2011, uma equipe de cientistas adotou essa abordagem em camundongos, conseguindo atrasar o início de condições relacionadas à idade, como cataratas e cifose. Os camundongos tratados até pareciam mais jovens. Mas, quando cientistas da Unity Biotechnology testaram uma abordagem similar em pessoas com osteoartrite e uma condição ocular relacionada à idade, no final da década de 2010 e início de 2020, os resultados foram decepcionantes.
Bilhões em jogo na busca pela juventude
Apesar de promessas anteriores terem falhado em testes humanos, a reprogramação celular surge como a grande aposta atual. A ideia se baseia em uma descoberta vencedora do Prêmio Nobel, que demonstrou que certos fatores genéticos podem transformar células adultas em células-tronco capazes de se tornarem praticamente qualquer tipo de célula.
Bilhões de dólares estão sendo injetados neste campo, com investidores como Yuri Milner e Sam Altman apoiando empresas como Altos Labs e Retro Biosciences. Esse fluxo de capital demonstra uma grande confiança no potencial da reprogramação para estender a vida útil saudável dos humanos. Contudo, o caminho é longo e cheio de desafios, e a tradução de estudos promissores em camundongos para tratamentos eficazes em humanos ainda é um salto a ser provado.