Cientistas em Valência mostrando um dispositivo que injeta embriões diretamente no útero, com microscópios e equipamentos de laboratório ao fundo.

IVF em nova era: robôs, IA e genética redefinem a reprodução

Por Pedro W. • 8 min de leitura

Ajudando os embriões a se fixarem

Algumas dessas tecnologias estão sendo desenvolvidas na Carlos Simon Foundation em Valência, na Espanha. Durante uma visita de um pesquisador em março, foi possível ver de perto um dispositivo que conseguiu manter um útero humano vivo fora do corpo pela primeira vez. Sim, você leu certo.

Enquanto parte da equipe sonha em construir úteros artificiais capazes de gestar um feto até o fim, o primeiro passo é usar esses dispositivos para entender melhor a implantação. Esse é o momento crucial em que um óvulo fertilizado faz contato com o revestimento uterino, “cava” um espaço para si e, essencialmente, “eclode”, dando início à gravidez.

Apesar de décadas de avanços na FIV, esse processo ainda é mal compreendido. Mesmos embriões saudáveis se implantam em apenas 40% a 60% das vezes. Na verdade, essa taxa pode ser até menor em alguns cenários.

Nas técnicas de FIV atuais, as clínicas criam embriões em estágio inicial e aguardam até que o útero seja considerado mais receptivo. Contudo, uma vez que o embrião é inserido no útero, ele fica por conta própria. Xavier Santamaria, cientista clínico sênior da Carlos Simon Foundation, e seus colegas, estão testando uma abordagem diferente. Eles desenvolveram um dispositivo que, ao toque de um botão, injeta o embrião diretamente no revestimento uterino. É um salto e tanto.

“O útero é como uma máquina de lavar”, explicou Santamaria em recente entrevista. “Ele está se contraindo para que o embrião não se implante.” A ideia, então, é ‘escondê-lo’ — o embrião — para que o útero não compreenda que há algo ali.” O pesquisador descreve a técnica como “Transferência Direta”. Em um pequeno ensaio clínico, eles descobriram que os embriões entregues com o dispositivo tinham 22% mais chances de implantação do que os embriões transferidos da maneira convencional. Os resultados, mesmo em fase inicial, são promissores.

Mas há um problema. O dispositivo de Santamaria requer que os embriões sejam congelados, o que não funcionaria com a maioria dos ciclos de FIV, pois as pacientes geralmente usam embriões que não foram congelados. “Achamos que temos que fazer um ensaio clínico maior com embriões frescos, que seriam uma mudança real na prática clínica”, disse Santamaria à MIT Technology Review.

Cientistas em Valência mostrando um dispositivo que injeta embriões diretamente no útero.

Cientistas em Valência mostrando o dispositivo de Transferência Direta, que permite injetar o embrião no revestimento uterino.

IA e robôs: a revolução silenciosa no laboratório

A automatização está discretamente se tornando a protagonista nos laboratórios de fertilidade. Máquinas não estão apenas substituindo mãos humanas; elas estão redefinindo as etapas cruciais da FIV, desde a seleção do esperma até o cultivo dos embriões. Isso não é ficção científica, é realidade: pelo menos 19 crianças nasceram até agora por meio de FIV totalmente automatizada.

Um dos expoentes dessa revolução é a startup Overture Life, liderada por um ex-fundador da clínica de fertilidade Igenomix. A empresa, sediada na Espanha e nos Estados Unidos, está na vanguarda da automatização da FIV. Seu sistema é capaz de fertilizar óvulos, cultivar embriões e até mesmo fazer biópsias para testes genéticos, tudo sem intervenção humana direta.

A promessa é tentadora: um processo mais eficiente, consistente e, um dia, quem sabe, acessível. A IA, por exemplo, pode analisar imagens de embriões de forma mais rápida e precisa do que o olho humano, selecionando os mais promissores para implantação. Ela consegue identificar características sutis que indicam a viabilidade de um embrião, algo que um embriologista, mesmo o mais experiente, pode perder com o cansaço ou a pressão.

E a automatização não para por aí. Outra inovação é a seleção de esperma. Robôs conseguem identificar os espermatozoides mais saudáveis e mais capazes de fertilizar o óvulo, maximizando as chances de sucesso. Isso transforma uma etapa demorada e subjetiva do processo em algo objetivo e rápido.

Vários pesquisadores veem na automação uma forma de padronizar a qualidade do serviço. “Hoje, a qualidade da FIV varia dramaticamente de um lugar para outro”, comenta uma publicação divulgada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o tema. “Com robôs e IA, podemos imaginar um futuro onde cada clínica, independentemente de sua localização ou do nível de experiência de sua equipe, possa oferecer um padrão de excelência similar.”

Testes genéticos: uma faca de dois gumes

Se, por um lado, a tecnologia promete otimizar o processo físico da FIV, por outro, ela escancara dilemas éticos profundos no campo dos testes genéticos. A triagem embrionária padrão já ajuda a reduzir o risco de abortos espontâneos, identificando anomalias cromossômicas importantes.

No entanto, nos EUA, a corrida por testes mais avançados está ficando um tanto quanto esquisita. Existem exames que prometem prever características como QI ou altura, tornando a escolha do embrião muito mais complexa e, para muitos médicos de fertilidade, bastante desconfortável.

Um relatório recente do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) destacou a preocupação crescente com esses testes “melhoradores”.

“Embora a tecnologia nos dê a capacidade de rastrear mais características, precisamos questionar a ética de fazê-lo, especialmente quando se trata de traços não relacionados à saúde e que podem levar à eugenia”, afirmou um porta-voz do ACOG.

A discussão não é trivial. Imagine a pressão sobre os futuros pais para escolher o “melhor” embrião, baseado em traços que podem ser socialmente valorizados, mas que não têm uma correlação direta com a saúde ou felicidade. Essa é uma fronteira perigosa que a tecnologia está nos forçando a cruzar, e que ainda não temos respostas claras sobre como lidar.

Edição genética: o tabu que insiste em voltar

Anos depois que He Jiankui, um cientista chinês, foi para a prisão por editar embriões humanos, uma sombra de desconfiança paira sobre o campo da edição genética. Mas a ironia é que a tecnologia CRISPR, que ele usou, está silenciosamente ganhando terreno novamente em startups que a veem como uma forma de prevenir doenças hereditárias graves.

A esperança é genuína: poderíamos, um dia, erradicar doenças devastadoras antes mesmo do nascimento. Mas o medo do “declive escorregadio” — a ideia de que, uma vez que começamos a editar para prevenir doenças, podemos facilmente deslizar para a edição de características estéticas ou cognitivas — é igualmente real e justificável.

A conversa é inevitável. Até onde podemos ir? O que é aceitável, e o que não é? Qual será o limite entre a medicina que cura e a ciência que “melhora”? Perguntas difíceis que a tecnologia de FIV e a edição genética nos lançam em um momento de rápida transformação. Até que ponto a sociedade está preparada para a edição de um DNA humano para que ele venha a ter certas características que são consideradas “melhores”? Esse questionamento irá permear a década que se aproxima.

É uma era de avanços vertiginosos e dilemas morais profundos. A FIV está no limiar de uma transformação que promete mais sucesso e acessibilidade, mas que também nos força a confrontar o que significa ser humano e até onde estamos dispostos a ir em busca da perfeição.

Tags: FIV IA em medicina Robótica Edição genética Saúde reprodutiva

Perguntas Frequentes

O que é a Transferência Direta de embriões e como ela funciona?

É uma nova técnica em teste que utiliza um dispositivo para injetar o embrião diretamente na camada uterina, buscando melhorar as taxas de implantação. A ideia é 'esconder' o embrião para evitar as contrações uterinas que podem dificultar a implantação.

Como a inteligência artificial ajuda na fertilização in vitro?

A IA pode analisar imagens de embriões com mais rapidez e precisão que humanos, selecionando os mais viáveis. Ela também auxilia na automatização da seleção de esperma e outras etapas do processo, visando aumentar a eficiência e padronizar a qualidade do serviço.

Quais são os dilemas éticos dos novos testes genéticos em embriões?

A preocupação se concentra em testes que prometem prever características como QI ou altura, não relacionadas à saúde. Existe o temor de que isso possa levar a uma forma de eugenia e exercer pressão indevida sobre os pais na escolha de embriões.

A edição genética em embriões está voltando à discussão?

Sim, apesar de controvérsias anteriores, startups estão revisitando a tecnologia CRISPR para prevenir doenças hereditárias graves. Isso cria esperanças, mas também reacende o debate sobre os limites éticos da intervenção genética em seres humanos.