A Inteligência Artificial (IA) e a revolução digital dependem de componentes cada vez menores e mais potentes. Minerais como as terras raras são indispensáveis nesse cenário. No entanto, a corrida global por essas matérias-primas coloca o Brasil em uma posição delicada: ou o país aprende a se inserir no jogo da tecnologia e industrialização, ou corre o risco de ser, novamente, um mero exportador de minério bruto e sem valor agregado.
Essa é a preocupação de especialistas como Ronaldo Félix, consultor em comércio exterior e sócio da Saygo Comex. Ele vê no iminente marco legal desses minerais e nas negociações com Washington uma grande oportunidade. A tensão é evidente: de um lado, a urgência de parcerias e investimentos; do outro, o risco de ceder um recurso estratégico sem o devido benefício em termos de conhecimento e desenvolvimento nacional. A visão de Félix é clara: para o Brasil, não basta apenas extrair e vender. É preciso aprender a transformar e inovar.
“O Brasil está super disposto a criar essas parcerias, principalmente com os Estados Unidos, mas garantindo transferência de conhecimento e tecnologia para que o país não passe a fornecer apenas mais uma commodity sem beneficiamento”,
afirmou o especialista ao Real Time, jornal do Times Brasil, após a reunião entre o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos EUA, Donald Trump. O dilema se intensifica com a China, maior parceiro comercial do Brasil, também buscando a hegemonia desses minerais, o que exige um complexo equilíbrio diplomático do governo brasileiro.
A complexa geopolítica das terras raras
O mercado de terras raras vive um período de grande instabilidade. O Brasil está nesse cenário. Esses 17 elementos químicos são cruciais para a fabricação de componentes eletrônicos presentes em smartphones, veículos elétricos, sistemas de energias renováveis e uma crescente gama de tecnologias avançadas, incluindo as que impulsionam a IA. A supremacia tecnológica e econômica do século XXI pode ser, em grande parte, definida pelo controle dessas cadeias de suprimentos.
A China, por exemplo, não apenas detém cerca de 40% das reservas globais, como também domina até 90% do refino e processamento desses minerais. Isso lhe confere uma enorme vantagem estratégica e um poder de negociação incomparável. O Brasil, com aproximadamente 20% das reservas mundiais, é um contraponto importante, mas sua relevância depende justamente da capacidade de não ser apenas um fornecedor primário.
A aprovação de um projeto de lei na Câmara que trata do marco dos minerais críticos é vista como um passo positivo. Segundo Ronaldo Félix, a proposta tem um bom equilíbrio, focando em geopolítica, industrialização com desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade. O texto, aparentemente, busca proteger o país da mera exportação de matéria-prima, abrindo caminho para mais conhecimento técnico.
Industrialização e autonomia
A história econômica do Brasil é marcada pela exportação de commodities. Do pau-brasil ao café, da borracha à soja, o país muitas vezes se viu limitado ao papel de fornecedor de insumos básicos, enquanto o valor agregado ficava com as nações que transformavam essas matérias-primas em produtos finais.
Com as terras raras, o risco de repetir esse ciclo é real. O especialista defende que a nova política brasileira para o setor não foque apenas em atrair investimento estrangeiro para extração, mas que exija contrapartidas tecnológicas substanciais. Ele destaca que o Brasil tem a oportunidade de se tornar um país que industrializa e se beneficia de materiais acabados vindos dessas terras.
Essa transição implica em um aprendizado acelerado e investimento em pesquisa e desenvolvimento. Embora já exista algum conhecimento técnico nas etapas de extração e separação, o país ainda precisa de um avanço em eficiência tecnológica e, principalmente, no processamento industrial mais complexo.
Desafios de governança e os números da ambição
Mesmo com um projeto de lei considerado bem-sucedido em sua essência, há pontos a serem ajustados. A questão da governança federal versus autonomia regional é um aspecto delicado. Félix argumenta que, embora o governo federal deva manter a coordenação geral, é preciso dar mais flexibilidade a estados e municípios para desenvolverem seus próprios projetos, citando como exemplo o que já acontece em Goiás, onde há operações de extração e separação em andamento com acordos de investimento dos EUA.
Um dos pontos mais discutidos é o fundo garantidor previsto no texto legal. Com R$ 5 bilhões, muitos veem este valor como um primeiro passo, mas longe do ideal para as ambições que o Brasil deveria ter. O especialista concorda, dizendo que é um “valor mínimo para se iniciar e ampliar o projeto, mas longe de ser o necessário”.
A complexidade do refino e da industrialização exige investimentos bilionários e expertise que, no momento, o Brasil ainda não possui em grande escala. Isso significa que a dependência de investimento estrangeiro continua sendo uma realidade. No entanto, essa dependência não deve ser passiva.
A visão é de que o Brasil deve exigir, negociar e garantir que cada dólar ou qualquer moeda estrangeira injetada no setor venha acompanhada de um pacote de tecnologia, treinamento e desenvolvimento de cadeias produtivas locais. A história, desta vez, não precisa se repetir.